A civilização contra a barbárie

Crónica n.º 7
Por Renato Janine Ribeiro*

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A política moderna deu força às instituições. Em meu livro A sociedade contra o social (Companhia das Letras: 2000), sustento que a modernidade cria duas “aberturas” (como no jogo de xadrez): uma é a abertura Maquiavel, outra a abertura Mandeville. Começar o jogo com Maquiavel significa dar toda a força à ação política, no que tem de imprevisto e inovador: é a abertura propícia às revoluções, às novidades, às rupturas. Abrir com Mandevile (o autor da Fábula das abelhas, célebre pelo moto “vícios privados, benefícios públicos”) significa criar instituições sofisticadas que façam até mesmo o mal gerar o bem. Assim, a ganância, inegavelmente um vício, se tivermos instituições como as do mercado, acaba engendrando a livre concorrência, o capitalismo, a prosperidade. Continuar a ler “A civilização contra a barbárie”

As mulheres salvarão o Brasil?

Crónica n.º 6
Por Renato Janine Ribeiro*

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A semana começou com um editorial de Le Monde, lamentando “o suicídio de uma nação”, o Brasil. Uma democracia que parecia promissora foi abalada pelos conflitos figadais destes anos e corre o risco de matar-se.

Há países que se destroem: formalmente continuam vivos, mas deixam de ser funcionais. E, se Bolsonaro ganhar, o Brasil pode perder o que lhe resta de democracia, de direitos humanos, de país mesmo.

Mas estes dias surgiram melhores prognósticos. O detestável atentado contra o líder da extrema-direita, que felizmente sobrevive, pouco lhe aumentou as intenções de voto. Continuar a ler “As mulheres salvarão o Brasil?”

Contra-revolução autoritária: Brasil alerta máximo

 

O esfaqueamento de Bolsonaro, candidato da extrema-direita militar, é mais um alerta para as gravíssimas ameaças à democracia, num quadro de contra-revolução autoritária e nacionalista que põe em perigo a liberdade.

O atentado contra Bolsonaro não foi montado pelo seu partido, e as teorias conspirativas do próprio e dos seus adversários só servem para ocultar o proveito que o candidato pretende tirar dele. O incêndio do Reichstag, ato individual ou inventona Nazi, serviu os objetivos de Hitler. Vivemos o século XXI como se tivéssemos esquecido o século XX e as suas trágicas lições.

Vivemos o século XXI como se tivéssemos esquecido o século XX e as suas trágicas lições.”

A guerra civil fria que polariza o país desde a eleição de 2014, agravada pelo impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula, líder das intenções de voto, está a ganhar contornos cada vez mais violentos.
Dias antes de ser esfaqueado, Bolsonaro tinha declarado no Acre que iria fuzilar todos os petralhas (ou seja, os políticos do PT). Num ambiente em que os discursos de ódio de Bolsonaro se multiplicavam, a caravana eleitoral de Lula foi baleada, Marielle Franco foi assassinada e refugiados venezuelanos atacados.
Como noutros países democráticos, a via da extrema-direita para o poder não passa pelo golpe militar, mas pelos atos eleitorais, como na Áustria e na Itália. Instalada no poder, sozinha ou em coligação, vai paulatinamente destruindo as liberdades públicas, o Estado de direito e a convivência intercultural, como fez o PIS na Polónia, ou o Fidesz de Viktor Orbán na Hungria. É o que Trump gostaria de fazer nos Estados Unidos, mas tem sido impedido pela independência das instituições e pela sociedade civil americana. No Brasil, porém, os contrapoderes são mais frágeis e uma vitória de Bolsonaro significaria um regresso do autoritarismo militar.

O movimento Mulheres Contra Bolsonaro, com quase um milhão de membros, é a prova de que a sociedade civil brasileira está em movimento  para prevenir uma ditadura militar pela via eleitoral.

O que a extrema-direita odeia não são as eleições, pelo menos enquanto estão na oposição, mas a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Esses valores fundamentais são apontados como responsáveis pela decadência da sociedade e a eles contrapõem o nacionalismo e a superioridade étnica. Bolsonaro, que é quem de forma mais transparente assume a natureza neofascista da sua ideologia, elogia a ditadura militar e expressa, sem pudor, o ódio e desprezo pelos direitos das mulheres, dos homossexuais, dos negros e dos emigrantes, a quem chamou “escória do mundo”.
Perante a gravidade da situação, como devem reagir os democratas?
Alguns, como se viu com o debate sobre o convite a Marine Le Pen para participar na Web Summit, em Lisboa, defendem a via do diálogo com a extrema-direita. Há quem acuse os que se opõem a esse diálogo de incoerência, pois não criticariam com o mesmo afinco os regimes totalitários de esquerda. Esquecem-se que a guerra fria acabou há quase 30 anos e que a hipótese de tomada de poder pelos comunistas é nula enquanto a da extrema-direita é bem real. Esquecem-se do grave erro da social-democracia e dos comunistas alemães, quando, perante a ameaça do nazismo, continuaram a ver-se como inimigos. Na Europa, a incoerência perante a extrema-direita está bem patente no Partido Popular Europeu, que mantém o Fidesz e o PIS no seu seio (sem que o PSD e o CDS clarifiquem a sua posição).
No Brasil, apoiantes de Bolsonaro, mas também de outras forças que se autointitulam liberais, classificam de comunista o Partido dos Trabalhadores. Mas o PT é um partido social-democrata de esquerda, que governou, apesar dos erros graves, sem pôr em causa a economia do mercado, tendo uma política de distribuição de riqueza para enfrentar a grave dívida social do Brasil. Maduro e Chávez estão muito mais perto do caudilhismo militar latino-americano que inspira Bolsonaro do que de Lula.
Para combater a extrema-direita é fundamental aplicar a lei: os apelos ao ódio e a propagação do racismo são crime. Para isso é preciso preservar o Estado de Direito e dar-lhe os meios para agir. Na Europa nem sempre tem sido feito assim, como se vê na lentidão com que as instituições europeias têm agido contra os governos da Hungria e da Polónia.

Para derrotar a extrema-direita é imperioso não só que a direita liberal supere a sua incoerência ética, mas também que a esquerda democrática supere a sua incoerência social.

No Brasil a situação é particularmente perigosa porque o Estado está muito fragilizado e com um judiciário politizado, mas silencioso sobre os apelos ao ódio e à violência, as Forças Armadas intervêm cada vez mais no debate político e há uma elite pronta a tudo para se manter no poder.
Não basta, no entanto, defender as liberdades e combater o racismo.
Para ganharem eleições, os partidos democráticos têm de enfrentar as graves distorções do sistema económico e financeiro e as gritantes desigualdades que provocam, o que explica a indignação das classes médias e a sua adesão a propostas demagógicas dos populistas. Para derrotar a extrema-direita é imperioso não só que a direita liberal supere a sua incoerência ética, mas também que a esquerda democrática supere a sua incoerência social.
A situação no Brasil é particularmente grave e deve ser vista como mais um alerta para a necessidade de travar os avanços da contra- revolução autoritária, o que só será possível assumindo que o risco é real e mobilizando a sociedade, sem sectarismo ideológico, para o conter. O movimento Mulheres Contra Bolsonaro, com quase um milhão de membros, é a prova de que a sociedade civil brasileira está em movimento  para prevenir uma ditadura militar pela via eleitoral.

La magia del independentismo (*)

(*) Artigo que nos foi enviado por Andreu Claret, jornalista e escritor catalão, a propósito do próximo debate do Fórum Demos sobre o Secessionismo Catalão e no seguimento da celebração do dia nacional da Catalunha (em catalão: Diada Nacional de Catalunya), que ontem (11.09.2018) reuniu cerca de um milhão de pessoas nas ruas de Barcelona pedindo a libertação dos dirigentes catalães presos. O texto foi igualmente publicado no jornal El Periódico de Catalunya, em 10.09.2018.
ilustracion dibujo de opinion de Leonard Beard(Créditos da imagem: Leonard Beard in El Periódico)

Andreu Claret: En ningún otro lugar, y bajo ninguna otra bandera, ha emergido un movimiento social tan amplio y determinado.

Por séptimo año consecutivo, Barcelona acogerá una gigantesca concentración de mujeres y hombres favorables a la independencia de Catalunya. Se puede estar a favor o en contra de la manifestación de la Diagonal, se puede pensar que la república que reclamarán los manifestantes es un sueño, una ilusión, incluso una barbaridad, o se puede pensar que supone la única manera de culminar las aspiraciones históricas del catalanismo político. Se puede pensar lo que se quiera, pero lo que no cabe es mirar hacia otra parte. Nadie puede dudar de que las siete últimas convocatorias de la Diada constituyen un hecho único en la Europa del siglo XXI. En ningún otro lugar, y bajo ninguna otra bandera, ha emergido un movimiento social tan amplio y determinado como el independentismo catalán. Con tal capacidad de atracción y resiliencia que bien podría hablarse de magia del independentismo. Al menos del catalán. Continuar a ler “La magia del independentismo (*)”

Porque a palavra nacionalismo é inadequada para a conceituação dos separatismos identitários, especialmente o catalão.

Por José Blanes Sala*
La vanguardia(Barcelona, ‘Diada de Catalunya’. FONTE: La Vanguardia)

A denominação nacionalismo contém uma elevada dose de ambiguidade. Não é à toa que ao se falar em autodeterminação devemos referir-nos aos povos e não às nações. Há uma diferença substancial entre o conceito de nação e o conceito de povo. Além disso, o conceito de nação costuma-se confundir com o conceito de estado.

Enquanto a ideia de estado tem um suporte completo do ponto de vista jurídico, o conceito de nação pertence à esfera da ciência política. Já o conceito de povo é tão amplo que a sociologia e a antropologia talvez fossem os terrenos científicos que mais lhes são apropriados, embora tenha sempre uma utilização, muitas vezes desmedida e manipulada, tanto pela política quanto pelo direito.

O fato é que hoje a palavra nacionalismo traz consigo uma forte dose de negatividade e um significado em boa parte pejorativo. Por isso, denominar todo e qualquer processo separatista de nacionalismo é jogar todos eles numa vala comum de forma injusta. Continuar a ler “Porque a palavra nacionalismo é inadequada para a conceituação dos separatismos identitários, especialmente o catalão.”

Na Suécia e na Europa, partidos democráticos não respondem à “grande inquietação da classe média”

Entrevista de Ana Gomes Ferreira a Álvaro Vasconcelos, publicada no jornal Público, em 9 de setembro de 2018.

Sem Título(Macron e Merkel: velocidades diferentes na luta contra o populismo Reuters)

O analista Álvaro Vasconcelos diz que a ascensão da extrema-direita não se explica só com a questão da emigração.

O analista Álvaro Vasconcelos explica que não só o problema da imigração explica a ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa. Depois de umas eleições em que a extrema-direita sueca ganhou espaço, o ex-director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia diz que os partidos democráticos não estão a dar resposta “à grande inquietação que a classe média tem em relação ao seu futuro”. Continuar a ler “Na Suécia e na Europa, partidos democráticos não respondem à “grande inquietação da classe média””

O tecido social brasileiro em dissolução

Crónica n.º 5
Por Renato Janine Ribeiro*
Bolsonaro é esfaqueado durante ato de campanha em MG(Fonte: Fábio Motta/Estadão Conteúdo)

O ataque, quase um assassinato, contra Jair Bolsonaro ilustra – e agrava – a dissolução do tecido social no Brasil. Primeiro foi o Estado que entrou num processo de destruição, com os poderes executivo e legislativo se desmoralizando, perdendo legitimidade, e depois deles o terceiro poder, o judiciário, entrando na mira do desprestígio. Agora é a sociedade que entra em quase-colapso. Em comum a esses preocupantes processos, um ponto: cada um faz o que quer. Continuar a ler “O tecido social brasileiro em dissolução”