Debater a Paz

Por F. Marina Azevedo Leitão

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[Legenda: Chamberlain rolls the world towards peace cartoon in Flickr]

Costuma dizer-se, nesta segunda década do século XXI, que a combinação dos avanços democráticos em boa parte do mundo e a internacionalização dos sistemas financeiro, comercial e produtivo deveriam ter tido já um “efeito estabilizador” na ordem mundial, “com a moderação das tendências belicistas ou de ameaças do uso da força” que ainda persistem[1].

Ao mesmo tempo, diante da progressão histórica, em sentido claramente evolutivo, das conexões internacionais e, com estas, dos instrumentos teóricos aptos a orientar proficuamente as relações entre os Estados e, entre estes, e seus componentes, conclama-se, com igual veemência, que a paz deveria ser já “o estado normal do sistema internacional; e anômalos, a tensão, a hostilidade e o conflito”[2].

No entanto, longe de quaisquer antolhos da história do tempo presente, sabe-se que o mundo de hoje dista ainda da concretização cabal de tal ideal ou, por outras palavras, como mencionaram a respeito Correia e Gonçalves, sabe-se que “o mundo está muito longe de ser um oásis de paz”[3]. E, em coerência com este ponto de vista, como acentuou o cientista político francês Dominique Moïsi (2017), uma “visão distorcida do presente é [sempre] a pior maneira possível de nos prepararmos para os desafios do futuro”[4]. Continuar a ler “Debater a Paz”

Mary Kaldor: Segurança Humana e Governança Global

Mary Kaldor, professora de Governança Global e diretora do Núcleo de Investigação em Sociedade Civil e Segurança Humana da London School of Economics and Political Science (LSE), marcará presença, como oradora, no próximo dia 26 de março, às 21:30, em Serralves, na sessão A UTOPIA DA SEGURANÇA HUMANA E DA PAZ.

Neste vídeo, Kaldor refere alguns dos fatores que hodiernamente contribuem para o crescimento da insegurança – sem esquecer o impacto da violência sobre o ambiente, o aumento de doenças e o subdesenvolvimento – reflectindo, depois, sobre a actuação das forças militares convencionais.

The real problem today is that there are large parts of the world that are deeply deeply insecure and yet our security capabilities which are based on military forces – conventional military forces – are completely in ill adapted for dealing with this situations […]

Mary Kaldor

Mais informação sobre a sessão: AQUI.

Contamos com a vossa presença.

A Utopia da Segurança Humana e da Paz

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No próximo dia 26 de março, pelas 21h30, no Auditório de Serralves, terá lugar o oitavo debate do ciclo de conferências “Utopias Europeias: o poder da imaginação e os imperativos do futuro” dedicado ao tema A UTOPIA DA SEGURANÇA HUMANA E DA PAZ.

A União Europeia foi construída como uma utopia da paz, inspirada pela horrível experiência do nacionalismo extremo que submergiu a Europa e o Mundo na tragédia de duas guerras mundiais, enquanto as guerras coloniais deslegitimaram as guerras imperiais. A segurança humana, que coloca os Direitos Humanos no centro de toda a ação militar, será a utopia que dará sentido à construção de uma política europeia de defesa? Será a segurança humana a doutrina que permitirá pôr termo aos conflitos que a Sul e a Leste da União Europeia criam tanto sofrimento?

Cartaz Utopia

João Cravinho (Ministro da Defesa de Portugal)  e Mary Kaldor (Professora da London School of Economics e autora do livro “Segurança Humana”) serão os oradores desta sessão que contará com a moderação de Álvaro Vasconcelos.

Bilhete da Sessão: €5 (50% desconto para Estudantes, > 65 e Amigos de Serralves).

Mais informação sobre o ciclo: AQUI.

Mais informação sobre a sessão: AQUI.

Contámos com a V/ presença e participação,

Fórum Demos.

A Direita democrática traiu os valores europeus!

 

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Extratos da minha entrevista ao Público de 3 de Março de 2019

 

Os contornos são semelhantes, mesmo em países tão distantes como o Brasil ou até a Índia. O que aconteceu, penso eu, foi que as democracias liberais passaram a estar intimamente ligadas a um sistema financeiro — os chamados mercados — que corrompeu o seu funcionamento. Deixou, de alguma forma, de haver alternativas democráticas à política dominante.

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A terceira dimensão da crise europeia é a que resulta do fim daquilo a que chamávamos o mundo bipolar, a que se seguiu um mundo unipolar, com a hegemonia americana sem adversário, e que está agora a dar lugar a um mundo policêntrico. E, num mundo policêntrico, os Estados têm muito mais liberdade de acção, incluindo os Estados que são potências de média dimensão. A Alemanha é hoje uma potência média, mas já não aquela potência que precisava a todo o custo da UE e da solidariedade dos outros europeus — porque estava dividida, porque tinha a ameaça soviética na sua fronteira.
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O PPE tem no seu seio partidos que estão disponíveis para alianças com a extrema-direita e aos quais não se ouve nenhuma crítica É aí que está o verdadeiro perigo. É assim na Áustria. Em Espanha — que parecia, como Portugal, imune à contaminação — surgiu agora o Vox, com um discurso próximo dos antigos franquistas, que não tinham sido verdadeiramente deslegitimados, mas que se tinham integrado no consenso da transição espanhola. O Partido Popular espanhol, membro do PPE, prepara-se para tentar chegar ao poder em aliança com ele. O PPE não está a assumir com clareza o combate à extrema-direita e ao nacional-populismo como devia. Não faz disso uma das suas bandeiras. E isto, evidentemente, fragiliza a UE, ao facilitar o caminho a estes partidos.
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Em Portugal ser nacionalista, racista, xenófobo é equivalente a ser salazarista e isso a classe política que nasceu no 25 de Abril não pode aceitar. Mas os anos vão passando : as redes sociais portuguesas estão cheias do discurso de ódio….Há a sensação de que alguma imprensa portuguesa, sobretudo televisiva, parece pensar que a extrema-direita é um bom filão para as audiências. É polémica, é disruptiva, é escandalosa.

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A União foi construída com base nos valores políticos e sociais defendidos pela resistência ao nazismo.

Foi a transformação profunda do sistema económico, em que os mercados financeiros ganharam uma importância desmesurada, que gerou a revolução conservadora de Thatcher e Reagan e, a partir daí, esse consenso rompeu-se. A direita passou a considerar que a intervenção do Estado na protecção dos cidadãos era contrária aos interesses da concorrência económica e do crescimento económico, e que a desigualdade e os grandes salários não eram um problema porque, se os ricos fossem mais ricos, investiam mais e geravam mais empregos. A esquerda foi criticando essa lógica cada vez mais timidamente, o que deu origem à “terceira via”, como ainda todos nos recordamos.

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Há hoje um fenómeno que foi mal percebido e, como tal, contrariado por aquilo que era o consenso europeu: o aparecimento de partidos de alternativa à esquerda. É o caso de Alexis Tsipras na Grécia, mas também do Podemos em Espanha e, de alguma forma, o que pode passar-se com o Bloco de Esquerda em Portugal. E que é também o que uma parte significativa do Labour quer fazer na Grã-Bretanha, mas que ainda enfrenta a resistência de Jeremy Corbyn. Estas correntes nasceram nas redes sociais, estão mais próximas da sociedade civil do que os velhos partidos tradicionais de centro-esquerda em franco declínio.

 

https://www.publico.pt/2019/03/03/mundo/entrevista/direita-democratica-traiu-valores-europeus-1863989#gs.hsRa4f4K

Utopias Europeias: fotografias da sessão ‘A Utopia da Hospitalidade – Unidade na Diversidade’

 

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Milton Hatoum e Lídia Jorge foram os convidados da sétima sessão do ciclo de conferências “Utopias Europeias: o poder da imaginação e os imperativos do futuro”, que decorreu na última segunda-feira à noite, dia 21 de Fevereiro, no Auditório da Fundação de Serralves.

Sob a moderação de Isabel Pires de Lima e com os comentários de Ana Paula Coutinho, ambos, escritores maiores da língua portuguesa, conversaram sobre ‘A Utopia da Hospitalidade – Unidade na Diversidade’.

Veja aqui as fotografias (*) da sessão.
Continuar a ler “Utopias Europeias: fotografias da sessão ‘A Utopia da Hospitalidade – Unidade na Diversidade’”

A Utopia da Hospitalidade – Unidade na Diversidade (*)

(*) Breve relato da sessão “A Utopia da Hospitalidade – Unidade na Diversidade”, por Fátima Vieira, Vice-Reitora da Universidade do Porto (Cultura, Museus e U.Porto Edições).

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25 de fevereiro

Só de ouvir a Lídia Jorge apetece-me ir para casa escrever um poema, exclamou Ana Luisa Amaral.

O caso não era para menos. Lídia Jorge estivera a falar de literatura e resistência, da necessidade de se fomentar uma cultura da lembrança, do livro como uma das Utopias fundamentais do nosso mundo – um espaço de ensaio da escrita do Outro e uma forma de hospedagem do leitor -, e da grande ameaça que impende sobre a humanidade quando os livros são proibidos.

Milton Hatoum falou também sobre a proibição de livros, uma espécie de Fahrenheit 451 do século XXI que está a acontecer no Brasil com o banimento, anunciado pelo Ministro da Educação brasileiro, dos livros de Paulo Freire, o grande utopista de uma educação para a solidariedade e a fraternidade. E inspirou a plateia ao afirmar a literatura como um ato de esclarecimento e emancipação, um dos caminhos essenciais da Hospitalidade.

Ana Paula Coutinho, que na sessão cumpriu o papel de Comentadora, lembrou que o pensamento da Hospitalidade é estruturante da cultura ocidental e alertou para o trabalho que é ainda necessário fazermos de difusão e atualização, para o nosso tempo, dessas matrizes narrativas, ao mesmo tempo que deixou no ar uma pergunta incómoda: quem é que narra o cosmopolitismo dos pobres?

A Utopia da Hospitalidade é, como afirmara Alvaro Vasconcelos na abertura da sessão, uma utopia social essencial para a nossa vida em sociedade.

Ainda bem que podemos contar com os escritores. É que, como disse Milton Hatoum, às vezes os escritores lançam sementes que parecem delírios. E, como antes afirmara Lídia Jorge, um livro é uma promessa de paz.

Ana Luísa Amaral, espero que estejas a escrever o teu poema. Enquanto aí estiveres, sabemos que é possível resistir.

*Fotografia: Serralves.

A Utopia da Hospitalidade

Por Gonçalo Marcelo*

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À medida que ganha força, na Europa e noutros contextos geográfico-políticos, o discurso xenófobo que faz dos migrantes o bode expiatório de todos os males da sociedade, o próprio conceito de hospitalidade – já para não falar do dever de hospitalidade – parece ter-se tornado polémico. Fará, portanto, sentido falar de uma utopia da hospitalidade? O debate não é novo, mas o problema é recorrente, porquanto na distância que vai entre o ideal ético e a prática concreta se cava um hiato cuja transposição parece difícil, se não mesmo impossível.

Continuar a ler “A Utopia da Hospitalidade”