Do Pontal a Charlottesville

Pedro Bacelar de Vasconcelos

 

No Pontal, o líder da oposição inaugurou o ano político com um discurso que imita o estilo de Donald Trump e copia alguns dos tópicos preferidos da extrema-direita americana e europeia que apontam os imigrantes como os responsáveis por toda a miséria e a insegurança do mundo ocidental. Prenúncios inquientantes que não podem ser ignorados, depois do silêncio cúmplice face às declarações racistas contra os ciganos, pronunciadas pelo seu candidato a Presidente da Câmara de Loures. Não era esta a linguagem do PSD e é lamentável esta colagem às palavras de ordem dos “supremacistas brancos”, da Direita Alternativa, do Ku Klux Klan e outros movimentos racistas e xenófobos que se manifestaram em Charlottesville, onde foi assassinada uma mulher de 32 anos por um dos manifestantes, em nome do ódio aos estrangeiros, dos preconceitos raciais, da intolerância religiosa e do encerramento das fronteiras.

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Polónia: Os fantasmas da Europa integrista

Ocidente foi o nome de um movimento da extrema-direita  em França nos anos 60. Hoje ,Ocidente volta para alguns na Polónia e nos Estados Unidos a significar integrismo, racismo, nacionalismo, ódio à liberdade e à diversidade cultural. O discurso de Trump em Varsóvia foi uma afirmação de apoio ao governo Polaco e à sua visão reaccionária da Europa e do Ocidente. Estranho, ou não, o apoio que o discurso de Trump encontrou em vários editorialistas do Observador. A esperança vem da sociedade polaca que se tem manifestado( ver foto)  contra as tentativas do governo de Kaczyński de destruir o Estado de Direito e impor a sua agenda integrista ultra-conservadora.

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A democracia como ideologia[1] e o elogio da Política

Por Maria Carlos Oliveira

 

   «Os povos não têm mais do que o grau de liberdade que a sua audácia conquista ao medo.»

Stendhal

   «As pessoas livres, por vezes, não têm bem consciência da importância da liberdade: ela é qualquer coisa de natural, como o ar que se respira.» [2]

                                                   Mário Soares

 

               Elogio-da-Politica

O Elogio da Política é um pequeno livro, de 2009, que na estante aguardava uma oportunidade para ser aberto. O que descobri, porque os tempos tornam alguns títulos mais apelativos do que outros, foi um discurso claro, rigoroso e de leitura fácil, que combina, por exemplo, com a toalha de praia ou com um momento de evasão reflexiva, numa esplanada, nestes tempos de canícula em que os media exploram, para lá do razoável, um país em chamas, para grande gozo, suponho eu, dos pirómanos.

A propósito dos incêndios, seria importante questionar o efeito reprodutor da imitação e, sobretudo, a mediatização das democracias, de que este episódio é apenas mais um exemplo, e que Karl Popper defende, no que é secundado por Mário Soares, ser importante corrigir, urgentemente, porque «Ou as democracias conseguem controlar[3] as televisões ou as democracias passam a ser dirigidas pela televisão…»[4]. Estaremos a tempo, pergunto eu?

O Elogio da Política é um livro de análise, que persegue objetivos claramente pedagógicos, destinado a ser compreendido por todos, em particular pelos jovens que têm pela frente a tarefa, hercúlea, de construir um mundo humano e de trabalhar para continuar a garantir a habitabilidade de um planeta que continua a enviar-nos preocupantes sinais de alerta, acompanhados por outros que nos fazem acreditar que o combate e a persistência valem a pena.

O Elogio da Política é um livro escrito por uma figura, consensualmente, incontornável da democracia portuguesa, mas também onde se descobre o suor do investigador, do intelectual curioso e aberto à polifonia da realidade, intrínseco à sua famosa intuição. Descobre-se também o protagonista global, que não perde a noção do distanciamento que o rigor intelectual exige. É também um livro de passagem de testemunho, não tenho dúvidas, para os livres-pensadores e para todos os homens de boa vontade, que estejam dispostos a lutar pelas suas ideias e a debatê-las de forma pacífica e crítica.

O Elogio da Política é um livro que interpela os cidadãos e a condição, nunca adquirida, de o continuarem a ser e foi isso que sempre, como cidadã, anónima e crítica, sem qualquer laço pessoal ou partidário, respeitei em Mário Soares. É também um livro que ajuda a identificar falsos cisnes negros porque a História permite compreender que, na sua maioria, o inesperado e o imprevisível resultam apenas da nossa ignorância e/ou distração.

É um livro de um homem de escala humana, o que convém lembrar nestes tempos tão propensos à entronização de ídolos.

É um livro de um homem corajoso e determinado que, nos momentos decisivos da História, soube sempre escolher o lado certo, o que importa lembrar nestes tempos de discurso fácil e inconsequente das redes sociais, paradoxalmente, mais uniformizadoras do que geradoras de diversidade (!). «Está na moda dizer mal da política. E, por extensão, dos políticos e dos partidos. (…) Em democracia é fácil e, além disso, gratuito. Porque não tem consequências negativas pessoais para os críticos nem para os maldizentes, mesmo por sistema»[5], a menos que, acrescento eu, se esteja na disposição de vender a alma, como Fausto,  em troca de benefícios …

É um livro que nos lembra que «As dificuldades obrigam as pessoas a refletir e a pôr em causa coisas que tinham como certas»[6].

É um livro que mostra que «No fundo tudo está inter-relacionado. É preciso que os governos responsáveis o compreendam e procedam em conformidade. Somos todos seres humanos, livres e iguais. A consciência de que é assim e de que todos vivemos numa casa comum – a Terra – impõe-nos o dever de solidariedade, que nos une, independentemente das nossas diferentes opções políticas, sociais e religiosas»[7].

É um livro de esperança, onde se sente o bater do coração de um homem, genuinamente, livre: «A consciencialização da importância da Política (com P grande), defensora dos valores humanistas, das grandes causas, respeitadora das regras éticas, da justiça e ao serviço das pessoas, será a melhor alavanca para conseguir que o século XXI traga, finalmente, uma nova ordem mundial, de paz, de liberdade, da igualdade possível e do bem-estar para todos, no respeito pela natureza e pela dignidade de todos os seres humanos»[8].

É um livro que termina com um Oxalá assim seja.

Seremos capazes?

 

Maria Carlos Oliveira

[1] Assumida na seguinte aceção: «A democracia é, ela própria, uma ideologia. Ou seja: um sistema de ideias coerente para a organização do Estado e da sociedade», in SOARES, Mário (2009) – O Elogio da Política, Lisboa, Sextante Editora, p. 45.

[2]. Idem, ibidem, p.77

[3] Esclarece Mário Soares: «Note-se que quando se diz “controlar as televisões” não se está a querer pôr em causa um princípio, dos mais importantes em democracia, que é o da liberdade de imprensa e de opinião.» (p. 149)

[4] Idem, ibidem, p. 149.

[5] Idem, ibidem, p. 11.

[6] Idem, ibidem, p. 150

[7] Idem, ibidem, p. 152.

[8] Idem, ibidem, p. 152.

 

 

Debate Forum Demos – Eleições francesas e britânicas, o que está a mudar?

 

Por Gonçalo Marcelo

Foi para mim um prazer participar na discussão do Fórum Demos e fazer um ponto de situação do Estado das democracias na Europa no rescaldo das eleições em França e no Reino Unido. Foi-me particularmente útil a discussão sobre se haverá ou não algo de novo nas opções dos povos europeus, hoje, e que não corresponda nem aos partidos tradicionais, nem às fórmulas populistas mais óbvias.

Aquilo que me parece importante sublinhar é que, pelo menos no que diz respeito à capacidade de mobilização hoje em dia, a linha divisória não é tanto entre “esquerda” e “direita” ou entre “elites” e “povo” mas mais entre quem tem a capacidade de ter um discurso coerente e, digamos assim, “ideológico” (e foi importante relembrar que o conceito de ideologia, enquanto capacidade de ordenar um conjunto de crenças e opções fundamentais, não está morto nem inoperante) que soa “autêntico” e quem aparece colado a um pragmatismo eleitoralista capaz de mudar de opinião constantemente por preceitos tácticos.

Parece-me que isso explica a popularidade de discursos tão marcadamente ideológicos como os de Corbyn ou Bernie Sanders e também, infelizmente, dos movimentos populistas como os de Le Pen on Trump. Resta saber se Macron trará algo de diferente à Europa ou não; por um lado, parece poder revitalizar o élan europeísta; por outro lado, ainda são muito pouco claras as suas opções ideológicas fundamentais pelo que só o tempo dirá o que a sua Presidência nos reserva, sobretudo no que diz respeito às orientações principais do eixo franco-alemão e do futuro da integração europeia.

A Oeste, nada de novo, Mas…

Por Maria Carlos Oliveira

   O que perturba os espíritos lógicos mais que a incondicional lealdade dos membros dos movimentos totalitários e o apoio popular aos regimes totalitários é a indiscutível atração que esses movimentos exercem sobre a elite e não apenas sobre os elementos da ralé da sociedade. Seria realmente temerário atribuir à excentricidade artística ou ingenuidade escolástica o espantoso número de homens ilustres que são simpatizantes não filiados ou membros registados de partidos totalitários.[1]                                                        Hannah Arendt

 

A retórica epidíctica[2] de Trump não é para ler, é para ver, sob pena de se perder o essencial.

Descobri o vídeo do discurso – https://www.youtube.com/watch?v=YnQax8Vcfys – por mero acaso. O facto de aparecer em primeiro lugar evidenciava numerosos acessos, o emblema Tradutores de Direita, bem visível no canto superior direito, o subtítulo Discurso histórico de Donald Trump na Polônia, com o respetivo acento circunflexo, interpelaram-me e levaram-me a vê-lo.

O discurso de Trump, inicialmente, tinha-me parecido uma piada. Quando li a imprensa, apesar de ter notado um Trump diferente no modus operandi, mais contido nos tweets, o que me deixou preocupada, não percebi como a minha ignorância me tinha aprisionado na falaciosa dicotomia da “América cosmopolita” versus “América do buraco rural”[3]. Continuar a ler “A Oeste, nada de novo, Mas…”

Europa: O acquis da revolta ética

 

 

A sociedade civil europeia exprimiu, nos últimos anos, em numerosas manifestações, a sua revolta ética, a sua indignação contra a violação dos valores em que assenta a União Europeia. É bom que os dirigentes dos Estados Membros se lembrem das exigências de liberdade, igualdade e solidariedade da cidadania europeia, que tenham presente as manifestações em toda a Europa contra a política de austeridade – como a que encheu as cidades portuguesas, com mais de um milhão de cidadãos,  em Setembro de 2013 – das manifestações de apoio aos refugiados, bem como da indignação perante a corrupção da política e dos políticos, e é bom que também se lembrem do entusiasmo com que muitos apoiaram as revoluções árabes de 2011.

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Eleições legislativas em Timor-Leste. Democracia, estabilidade e boa governação – ingredientes antigos para receitas novas?

Por Ana Rodrigues

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Numa sondagem divulgada no mês de Junho, pela Lusa, os timorenses dizem preferir, numa expressiva maioria de 55%, uma economia mais próspera, por confronto com um sistema democrático, opção que apenas colhe o apoio de uma minoria de 37%. Estes resultados, que vêm a propósito do processo eleitoral – para as quartas eleições legislativas desde a independência – em curso em Timor-Leste, trazem ínsitas algumas questões sobre que vale a pena reflectir.

Timor está agora a atingir a maioridade, enquanto país independente. Dezoito anos transcorridos do referendo que ditou a independência, quinze anos da sua restauração efectiva, um novo ciclo sobrevém em 2017, com a eleição do novo Presidente da República (Francisco Guterres Lu-Olo) em Março passado e a eleição de um novo Parlamento e consequente designação do Primeiro-Ministro agora em Julho.

Nestes anos, Timor já se defrontou com crises sérias, a mais séria das quais tendo inclusive levado à renúncia forçada do – à época – Primeiro-Ministro Mari Alkatiri, em 2006, na sequência daquela que ficou conhecida como a crise dos peticionários, e à entrada no país de forças militares estrangeiras, num complexo jogo de xadrez que envolveu a Austrália, a Igreja e outros actores improváveis (ou nem tanto…) e que por pouco não levava ao colapso das instituições democráticas no país. Dessa crise, debelada definitivamente só a partir de 2008, Timor parece ter-se erguido com maior sageza, seja do lado do povo, seja das várias instituições do Estado. Continuar a ler “Eleições legislativas em Timor-Leste. Democracia, estabilidade e boa governação – ingredientes antigos para receitas novas?”