A nossa península já foi sábia

Artigo de opinião de Rui Tavares, publicado no Jornal O Público a 10 de Outubro de 2017

 

Houve um tempo em que na nossa península nasceram os que podem ser considerados os três maiores sábios das três grandes religiões do livro. Dois deles em Córdova: primeiro o muçulmano Averróis, nascido em 1126, filósofo da ciência, da tolerância e da educação — incluindo a educação das mulheres —; logo depois em 1135 o judeu Maimónides, médico, filósofo e autor do livro com um dos mais belos títulos jamais imaginados, o Guia para perplexos. O terceiro nasceu nas Ilhas Baleares, talvez em 1315: era o cristão Ramon Llull, matemático, viajante, diplomata e autor de uma novela mística na sua língua materna catalã, oLlibre de meravelles (Livro de Maravilhas, em português — esta gente tinha talento para títulos).

E houve um tempo, agora mesmo, enquanto se esperava por saber se o governo da Catalunha declarava ou não a sua independência unilateral de Espanha, em que eu só pensava nesse outro tempo em que a nossa península era sábia. Sabem porquê? Porque também houve muitos outros tempos em que a nossa península não foi sábia. Tempos em que cristãos, muçulmanos e judeus se massacraram em vez de se traduzirem, lerem e conversarem como fizeram os nossos três sábios. Tempos da Inquisição. Tempos da Guerra Civil de Espanha. Por isso, enquanto esperava pela declaração (ou não) unilateral de independência, eu só pensava nos tempos em que a nossa península foi sábia, e nos tempos em que ela não soube sê-lo.

E que tem um português a ver com isto? Tudo. A península é a nossa primeira casa. Aqui onde escrevo, Lisboa, viveu feliz Cervantes e foi publicado o Quixote no mesmo ano em que saiu em Madrid (a única outra cidade a ter esse magnífico privilégio é Valência, uma cidade de língua catalã). Em Portugal amamos e admiramos os nossos irmãos, irmãs, primos e primas galegos e castelhanos, bascos e andaluzes, catalães e de toda a Espanha. Admiramos Espanha, embora dela não tenhamos querido fazer parte. Não somos parte interessada em que haja (ou não) independência da Catalunha. Mas somos parte interessada, como portugueses e europeus, em que a nossa península saiba ser sábia nestes momentos decisivos. Por isso temos de saber ser contidos, equitativos e portadores de boa vontade.

E que é ser sábio nestas circunstâncias em que há duas vontades inamovíveis e contrárias? Trata-se, é claro, de saber aproveitar todas as oportunidades para o diálogo. Mas trata-se, acima de tudo, de não aproveitar nenhuma das oportunidades que sempre se oferecem para agir de orgulho ferido. Não faltam razões legais, políticas, culturais e económicas para a inflexibilidade — de parte a parte. Não faltam nunca ocasiões para tentar humilhar o outro. É preciso recusá-las a todas.

Não é tarde para que o diálogo se faça. As saídas possíveis são muitas: um pacto para realização de um referendo legal, só na Catalunha ou em toda a Espanha; novas eleições na Catalunha ou em toda a Espanha; um roteiro para uma Espanha federal; uma república catalã consensualmente independente ou unida confederalmente a Espanha. O problema não está nas saídas, está nas entradas: quem terá a coragem de abrir a porta ao diálogo? A decisão anunciada por Puigdemont em Barcelona, — de declarar a independência mas imediatamente suspender os seus efeitos —, pode ser uma porta entreaberta. Se o governo de Rajoy, em Madrid, entender este gesto como oportunidade para abrir o resto da porta e não para a fechar com estrondo, poderemos ter aqui um início de solução.

Ouçamos o mais velho de todos os sábios peninsulares. Também nasceu em Córdova, há pouco mais de dois mil anos: Séneca. Explicou no seu A Constância da Sabedoria (bom título, bom título) que o sábio é aquele que, na verdade, só é vencido pela sua facilidade em sentir-se insultado e a sua vontade de humilhar. Ceder a essas fraquezas é a verdadeira derrota. Resistir ao orgulho, condição para a convivência, a verdadeira vitória. A última frase de Séneca, assim contextualizando o que ele entende como verdadeira vitória (sobre nós mesmos e não sobre os outros) diz assim: “não se dar por vencido é ser mais forte que o destino e, assim, fazer parte da república do género humano”. Ainda vale a pena meditar bem no que queria dizer com isto o mais velho sábio da nossa península, e agir em conformidade.

Em defesa do discurso de Filipe VI de Espanha

Por Maria Carlos Oliveira

 

 “Desde as eleições americanas de Novembro de 2016, pelo menos, as coisas ficaram mais claras. A Inglaterra perdeu-se no seu sonho de império – versão fim do século XIX; os Estados Unidos querem recuperar a sua grandeza – versão pós-guerra, fotografia a sépia, 1950. A Europa, a Europa continental, encontra-se sozinha, fraca e mais dividida do que nunca. A Polónia sonha com um país imaginário; a Hungria já não quer senão Húngaros de «gema»; os Holandeses, os Franceses e os Italianos estão a contas com partidos que querem emparedar-se dentro de fronteiras igualmente imaginárias. A Escócia, a Catalunha, a Flandres querem tornar-se países. Tudo isto enquanto o Urso russo lambe os beiços e a China realiza enfim o seu sonho de voltar a ser «o Império do Meio», ignorando os interesses de todas as periferias. Em vias de desmembramento, a Europa conta tanto como uma noz num quebra-nozes. E, desta vez, não pode contar com os Estados Unidos nas mãos de um novo rei Ubu[1].”[2]

 

 

Devo começar por dizer que sou republicana e nunca simpatizei com os movimentos independentistas na Espanha democrática.

Hoje, 10 de outubro de 2017, à hora em que escrevo, ainda não sei o que vai acontecer na Catalunha. Ando há dias a refletir sobre o assunto e a escrita tem sido mais lenta do que a velocidade dos acontecimentos!

Compreendo as raízes históricas dos movimentos independentista do País Basco e da Catalunha, cujas populações sofreram duramente, por exemplo, durante a Guerra Civil Espanhola e durante o regime de Franco. O dramatismo da História levou Pablo Picasso a pintar a Guernica (1937), que é um grito dilacerante contra a brutalidade de um bombardeamento aéreo perpetrado, em 26 de abril de 1937, pela Legião Condor, alemã, que metralhou e despejou 30 toneladas de bombas sobre a população civil, num dia de mercado, com o objetivo de humilhar o povo basco; levou George Orwell a escrever a Homenagem à Catalunha (1938), para imortalizar a resistência heroica dos antifascistas catalães, que se uniram às forças republicanas para combater Franco; levou Manuel Vázquez Montalbán, que “sofreu duramente às mãos da polícia franquista, devido à sua militância comunista”, a recriar nos seus livros, “de forma sublime, o ambiente vivido na Catalunha naquela época”[3].

Mas, em 2017, a Espanha vive uma democracia, também ela afetada pelos desafios, internos e externos, nos domínios político, económico, social, cultural e ambiental. Se é verdade que História tece a identidade de um povo e oferece ferramentas para interpretar o futuro, também é verdade que não chegou ao fim, como acreditou F. Fukuyama, e não se repete!

Mariano Rajoy é um político conservador e inábil, que, tragicamente, partilha com Carles Puigdemont a falta de visão para responder aos desafios com que a Espanha e a Europa[4] se debatem, e a incapacidade para dialogar, o que nestes tempos, de lento regresso da política, os reduz a líderes do passado. A perceção destas fragilidades foi expressiva na exigência púbica do Parlem/Hablemos, única forma de procurar atravessar, com maior segurança, os escolhos decorrentes da complexidade e imprevisibilidade do mundo de hoje.

Carles Puigdemont é um líder irresponsável, oportunista, prisioneiro de uma agenda radical, que pretende mobilizar parte dos cidadãos da Catalunha, a que prefere chamar povo, para a construção de um Estado-nação com base no seu ethnos – «hoje os catalães “estão mais perto” do seu “compromisso histórico”[5]-, ao mesmo tempo que ignora  a realidade complexa do tecido social e económico da Catalunha, assim como a reconfiguração imposta pela globalização ao conceito de Estado-nação soberano.

 Diz-nos a História que:

“A insaciável procura de mão-de-obra no próspero quadrante nordeste europeu explica as extraordinárias migrações em massa nos anos 50 e 60. (…) Em Espanha, mais de um milhão de habitantes da Andaluzia mudou-se para o Norte, para a Catalunha, durante as duas décadas após 1950: em 1970, 1,6 milhões de Espanhóis nascidos na Andaluzia viviam fora da sua região natal, 712.000 em Barcelona”[6].

Em meados dos anos 60, pelos critérios da ONU, a Espanha deixou de ser considerada um país em desenvolvimento. No entanto, “O «milagre económico» de Franco não deve ser exagerado. A Espanha não estava sobrecarregada com os resíduos de um império e portanto não enfrentava nenhum dos custos económicos ou sociais da descolonização. A maior parte do dinheiro estrangeiro a entrar no país nos anos 60 não vinha da exportação de bens produzidos em Espanha, mas das remessas do estrangeiro dos trabalhadores espanhóis emigrantes ou então de turistas europeus do Norte: resumindo, a modernização económica de Espanha era largamente um subproduto da prosperidade de outras nações”[7];

A Catalunha, à semelhança de outras regiões ricas como a Lombardia, a Flandres belga, Baden-Württemberg ou Baviera na Alemanha, instalou um gabinete em Bruxelas e aprendeu a “fazer lobby em seu benefício, para investimentos ou para políticas da Comunidade que favorecessem instituições locais de preferência às nacionais”[8], ou seja, beneficiou da solidariedade deste projeto Europeu que hoje, ainda, nos acolhe como membros;

 A prosperidade vivida pela Catalunha, à semelhança de outras regiões da Europa, levou a que “os representantes mais radicais da causa da independência nacional” vissem “ os seus argumentos esmorecer perante efeitos desmobilizadores de uma riqueza pouco habitual”[9]. Mas o seu independentismo ressurge com a crise económica vivida na primeira década deste século, alimentando-se por isso, em boa parte, do egoísmo, que, fazendo tábua rasa dos múltiplos fatores que estiveram na origem da sua prosperidade, recusa agora solidariedade às comunidades mais pobres Espanha, nomeadamente à da Andaluzia! Se a Catalunha fosse uma comunidade pobre, estariam alguns dos seus cidadãos a lutar por uma Catalunha independente?

Este processo independentista, que vejo, em muitos aspetos, como próximo dos populismos europeus (recorde-se o discurso inflamado de Nigel Farage contra a violência da polícia na Catalunha, apesar de a ter legitimado contra os refugiados), ainda me parece mais absurdo quando o conceito de soberania nacional está em crise. Como sublinha Arjun Appadurai, o “Sintoma mais marcante desta crise de soberania é o facto de nenhuma nação-estado moderna controlar aquilo a que poderia chamar-se a sua economia nacional. A economia dos Estados Unidos está, em grande parte, na mão de Chineses, os Chineses dependem drasticamente das matérias-primas da África e da América Latina, bem como de outras zonas da Ásia, toda a gente depende de algum modo do petróleo do Médio Oriente e praticamente todas as modernas nações-estado dependem do armamento sofisticado de um pequeno número de países ricos. A soberania económica, com base na economia nacional, foi sempre um princípio dúbio. Hoje é cada vez mais irrelevante”[10]. Num tempo de capitalismo financeiro, ainda sem alternativa consolidada, apesar da perceção de que é necessário mudar, os sinais que vêm da Catalunha não são despiciendos: Banco Sabadell decidiu mudar a sede social para Alicante, Caixabank vai para Valência…outras empresas admitem sair…

Neste complexo contexto, que alternativas restavam a Filipe VI?

Numa Espanha em risco de fragmentação, poderia o rei deixar de invocar o respeito pelo Artigo 2º da Constituição que proclama a unidade indissolúvel de Espanha? Não foi a Constituição Espanhola confirmada, num segundo referendo em 1978, por todos os espanhóis?

Poderia o rei legitimar uma rebelião num Estado Constitucional? Não é a Espanha um estado de direito democrático? Não reconhece a Constituição espanhola a diversidade das suas comunidades?

Poderia o rei, em nome da unidade de Espanha e do espírito de cooperação e solidariedade, deixar de denunciar o egoísmo e a falta de lealdade dos líderes da Catalunha, cuja representatividade eleitoral também estava longe de reunir o consenso da sociedade catalã?

Poderia o rei criticar, publicamente, a polícia, que procurava fazer cumprir a lei, sem fragilizar o poder exclusivo do Estado para exercer a violência?

A investigação dos juízes à violência exercida polícia na Catalunha, que considero absolutamente condenável, não terá vindo dar razão à convicção manifestada pelo rei relativamente às virtualidades existentes num Estado Constitucional moderno, isto é, de direito democrático[11] para resolver os problemas, como por exemplo a aplicação desproporcionada da força contra civis pacíficos?

Poderia o rei ter pedido diálogo ou mediação sem que tal implicasse um reconhecimento, implícito, da legitimidade das pretensões independentistas e consequentemente o reconhecimento da desagregação da Espanha como Estado Uno?

A forma como o rei terminou o seu discurso, não constituirá um apelo à reflexão e diálogo na sociedade espanhola?

Como acredito que a política é a arte do possível, e tenho esperança que a Espanha encontre a energia e engenho suficientes para superar a atual crise e contribuir para construção do projeto europeu, termino com a parte final do discurso de Filipe VI:

Son momentos difíciles, pero los superaremos.(…) Porque nuestros principios democráticos son fuertes, son sólidos. Y lo son porque están basados en el deseo de millones y millones de españoles de convivir en paz y en libertad. Así hemos ido construyendo la España de las últimas décadas. Y así debemos seguir ese camino, con serenidad y con determinación[12].


[1] “Em 1888, Alfred Jarry e os seus colegas de escola decidiram parodiar o aspeto grotesco e boçal do seu professor de física, constantemente alvo do ridículo por parte dos alunos. Assim nasce o “Rei Ubu”, que o autor criou para representar a terrível natureza animal do Homem, expondo o nível de crueldade e desumanidade a que se consegue chegar a partir de uma simples posição de poder.Ubu assassina o rei Venceslau e usurpa o trono da Polónia. Ao longo de uma sucessão de episódios absurdos, exerce o seu reinado de forma brutal e sanguinária, deixando o país na miséria. Figura monstruosa e corrupta, mas acima de tudo, covarde, estúpida e ridícula (de tal maneira que dá vontade de rir), Ubu pratica uma política catastrófica em seu próprio interesse, arruinando todo o território à sua volta. Uma metáfora assustadora que, ciclicamente, vai encontrando ecos na realidade internacional.” http://bilheteira.fnac.pt/Evento-6604/UBU-REI

[2] Bruno Latour in, O Grande Retrocesso, Lisboa, Objetiva, 2017,p. 137.

[3] https://ionline.sapo.pt/582667 [consultado em 9.10.2018].

[4] “A Europa está perante três ameaças: o abandono em campo aberto dos países que tinham inventado a globalização; a alteração climática; a obrigação de servir de refúgio a milhões de migrantes e refugiados. Esses três não passam, aliás, de aspetos de uma e mesma metamorfose: o solo europeu mudou de natureza: nós, Europeus, estamos todos em migração para territórios a descobrir e a reocupar. (…)

Que fazer, se não existe planeta, terra, solo, território para nele alojar o Globo da globalização para onde todos os países pretendiam rumar? Ou negamos a existência do problema, ou então tentamos descer à terra. Para cada um de nós, põe-se a questão: «Será que continuamos a alimentar sonhos de fuga ou será que nos pomos a caminho à procura de um território habitável para nós e para os nossos filhos?» É, de agora em diante, o que divide as pessoas, muito mais do saber se é de direita ou de esquerda.” (Bruno Latour in O Grande Retrocesso, Lisboa, Objetiva, 2017,pp. 138-39)

[5] Público, 5.10.2017

[6] JUDT, T. (2016) – Pós-Guerra,: História da Europa desde 1945, Lisboa, Edições 70, p. 388.

[7] Idem, ibidem, p. 586.

[8] Idem, ibidem, p. 602.

[9] Idem, ibidem, p. 801.

[10] in O Grande Retrocesso, Lisboa, Objetiva, 2017,pp. 18-19.

[11] A los ciudadanos de Cataluña –a todos− quiero reiterarles que desde hace décadas vivimos en un Estado democrático que ofrece las vías constitucionales para que cualquier persona pueda defender sus ideas dentro del respeto a la ley. Porque, como todos sabemos, sin ese respeto no hay convivencia democrática posible en paz y libertad, ni en Cataluña, ni en el resto de España, ni en ningún lugar del mundo. En la España constitucional y democrática, saben bien que tienen un espacio de concordia y de encuentro con todos sus conciudadanos.

[12] http://www.casareal.es/ES/Actividades/Paginas/actividades_discursos_detalle.aspx?data=571

 

Espanha Invertebrada

Ninguém ganha com a fragmentação de Espanha,por isso todos têm interesse numa solução  negociada. A violência só aprofundou a fratura. O governo espanhol e as autoridades da Catalunha devem sentar-se a discutir antes que seja demasiado tarde.Diálogo é a palavra chave para sair da crise,- é o que todos devem dizer ao governo de Rajoy.

Os catalães queriam decidir o seu futuro pelo método democrático, isto é, pelo voto, futuro esse que poderia ser a sua adesão ao projeto espanhol ou a independência. O Estado espanhol reagiu, como o fez no século XVII, enviando as forças de repressão, neste caso a Guardia Civil. Que o espírito de muitos era de guerra ficou bem provado pelas bandeiras e os gritos guerreiros de alguns guardas que partiam, mas sobretudo dos que se vinham despedir dos combatentes. Chegaram à Catalunha e depararam-se com uma população pacífica (parecia que Gandhi tinha por lá passado), que só procurava exercer o seu direito de voto e com uma polícia catalã que recusava recorrer à violência para impedir os seus concidadãos de votarem. A consequência foi que a maioria esmagadora votou e a Guardia Civil atacou onde pôde, agredindo cidadãos de todas as idades, cenas que chocaram o mundo. Não me recordo de nenhum outro caso, em regimes democráticos, de violência contra pessoas que queriam votar.

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Alemanha, Europa: ano zero

 

A Europa está no seu ano zero, na encruzilhada entre a gravidade da crise da democracia europeia, confirmada pelas eleições alemãs, e as propostas de Emmanuel Macron para a refundação da União.

Com a vitória de Macron em França, pensou-se cedo demais que a crise europeia era já uma coisa do passado. As eleições alemãs são um aviso de que o problema europeu está longe de estar resolvido e que ninguém, nem mesmo a Alemanha, escapa ao mal estar dos cidadãos com os partidos que governaram as democracias europeias desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha é também a prova de que a crise, muito mais do que económica, é política: é uma crise da democracia europeia, que atinge particularmente os partidos socialistas e social-democratas.

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Debate Forum Demos – A Polónia e Trump: o debate sobre a identidade europeia

Depois de mais uma debate Forum Demos aqui ficam as ideias, conclusões e reflexões de alguns dos participantes.

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Pedro Bacelar de Vasconcelos

Ao longo dos últimos 3000 anos aqui desembocaram viajantes, mercadores, invasores, imigrantes e refugiados. Do Oriente, trouxeram artefactos, especiarias, crenças e saberes, o alfabeto, a álgebra, a astronomia. Desta herança nasceram os povos da Europa. Criaram reinos e impérios, lançaram guerras, fizeram e desfizeram alianças e, durante algum tempo, dominaram todo o Mundo. Cada povo europeu representa-se uma Europa inventada à sua medida, conforme o seu próprio historial de agravos e glórias. Nessa diversidade cultural, como avisou Álvaro Vasconcelos reside a sua maior riqueza. A identidade política europeia constrói-se sobre o passado, entre os Urais e o Mediterrâneo, com Roma e Cartago.

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O eurodemissionismo é uma desgraça nacional

Por Rui Tavares

Publicado no jornal Público – https://www.publico.pt/2017/09/08/politica/noticia/o-eurodemissionismo-e-uma-desgraca-nacional-1784761

 

Na crónica de segunda mencionei que foram sobre a Europa a primeira, segunda, terceira e demais perguntas durante a primeira hora do debate entre Merkel e Schulz para as eleições alemãs. A reação de alguns leitores foi do género: “Naturalmente, se os alemães mandam na Europa são eles que a devem discutir.”

Mas houve outra coisa curiosa nas respostas de Merkel e Schulz às perguntas sobre a Europa: Merkel disse que não apresentaria uma proposta na UE antes de ter a certeza de ter uma maioria de países com ela, Schulz disse que apresentaria essa proposta mesmo que a Alemanha pudesse ser derrotada em votação final. Ou seja, ninguém optou pela resposta típica nos debates de outros países, nos raros casos em que a Europa é tema: “Chegamos lá, batemos o pé, e a Europa vai ter de entender que a posição alemã é para valer.”

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Nacionalismo, racismo e identidade: contexto e tessituras nacionais

Por Ana Rodrigues

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“O olhar do Ocidente, a civilização que fez o seu ascenso percorrendo o espaço atlântico aberto por Colombo, cegou quando se pôs a observar o que não era europeu ou ocidental. Quando observou o Outro, o oculus mundi perdeu a visão, paradoxalmente, devido às suas percepções e previsões. Não só ajudou a falsificar o Outro, mas de facto inventou-o a partir dos próprios demónios internos da Europa – receios, ansiedades e alienação.”[1]

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