Que Futuro tem o Futuro? por Luísa Schmidt

A manter tudo na mesma – Buziness As Usual – o futuro não tem futuro. Vejamos, pois, o que temos que fazer agora, para que o futuro seja.

A primeira coisa é simples. Trata-se de olhar para a realidade. Sabemos hoje que o mesmo sistema que produziu coisas tão importantes – como a evolução tecnológica e científica, o aumento de esperança de vida e de bem-estar para tanta gente e reduziu o número de pessoas em pobreza extrema, – entrou num imprudente descontrolo compulsivo passando a criar mais problemas do que os que consegue resolver. A crise ambiental global associada ao extremar das desigualdades sociais, ameaçam hoje a paz e a sobrevivência da Humanidade no planeta.

Se os acordos do GATT de 1994, que criaram a Organização Mundial do Comércio (OMC), tivessem integrado o respeito pelas condições ambientais e humanas na regulamentação do comércio internacional, como defendia o Clube de Roma, a concorrência teria sido mais leal e a globalização teria acautelado alguma justiça e equilíbrio. É o que terá de acontecer agora.

Não será, pois, com mais do mesmo que o futuro poderá ter futuro. Mas mudar agora é principalmente mudar o quê? 

Comecemos pela descarbonização e pela energia. A queima de combustíveis fósseis terá mesmo que declinar e de forma abrupta na linha do que propõe o Pacto Ecológico Europeu. As graves crises de saúde pública geradas pela poluição atmosférica, e que nos tornam mais vulneráveis incluindo ao Covid-19, ficaram agora evidentes e obrigarão a mudanças rápidas, mesmo nos países mais renitentes. Milão e outras cidades europeias já se estão a organizar nesse sentido, criando mais espaços verdes livres de automóveis e desincentivando o trânsito motorizado. A Lisboa Capital Verde começou a fazê-lo e seguramente irá fazer muito mais.

Hoje já é possível diversificar e aumentar as fontes de energia limpa, permitindo aos cidadãos viver de uma forma sofisticadamente mais simples, sustentável e socialmente mais justa. Se isso acontecer assistiremos num futuro relativamente próximo a mudanças perceptíveis a vários níveis nas nossas vidas. Desde logo nos sistemas de mobilidade com a sua electrificação pública e privada, incluindo os pesados de mercadorias e navios que, ao contrário da aviação, se encontram já em processo de transição energética.

Além disto, em áreas crescentes e em número cada vez maior de habitantes ou comunidades residenciais, a gestão da energia limpa – integrando produção e consumo em redes inteligentes – vai tornar-se frequente pois a lei já o permite e muitas autarquias o irão adoptar. Portugal, sendo o país europeu com maior número de horas solares por ano, irá assim deixar de ser um dos países onde as populações menos usufruem de painéis solares térmicos e fotovoltaicos como agora acontece.  

E nem é preciso inventar nada. Basta agir politicamente a tempo e horas e no momento certo: criar incentivos fiscais não para os fósseis mas para as renováveis e sua expansão descentralizada a toda a sociedade; combater seriamente a pobreza energética preparando as habitações para resistirem às condições extremas a que todos vamos estar sujeitos com o aumento de frequência e intensidade das ondas de calor e frio. Eficiência energética para todos significará poupança certa da factura energética das famílias e do país e melhor saúde pública. Será uma oportunidade para multiplicar empregos e avançar com a reabilitação a sério, e não apenas cosmética, do parque habitacional cujo isolamento térmico será fundamental para resistir a novas crises pandémicas e climáticas. O documento europeu Fundo da Transição Justa que determina os futuros investimentos no quadro da UE terá de ser aplicado nesta grande empreitada.

Adaptação Urgente

Mesmo que consigamos ‘achatar a curva’ das emissões, teremos sem dúvida que nos adaptar a muitas coisas pois as alterações climáticas já nos estão a trazer novos colapsos. O país tem pontos críticos de alta vulnerabilidade.

No litoral será preciso inverter totalmente a forma da sua ocupação, suspendendo as absurdas pretensões urbanísticas para as zonas costeiras que ainda hoje se assinalam por vezes em dunas primárias como em Matosinhos ou em Troia, para dar apenas dois exemplos. Mas também poderíamos falar no Algarve ou até na frente Tejo em Lisboa e Oeiras agravando o risco ambiental e desfigurando as cidades.

Há também uma extrema vulnerabilidade aos incêndios florestais que, para não se tornarem devastadores, obrigarão a políticas de ordenamento florestal e territorial drásticas. Teremos finalmente de completar o cadastro, instalar vastos dispositivos de detecção e combate precoce, e mobilizar civicamente o país articulando as forças armadas, com outras estruturas (bombeiros, policias) e criando até algo como um novo serviço cívico educativo.

A terceira grande vulnerabilidade são as secas e o avanço da desertificação a sul e interior a que se associa o problema da redução dos caudais dos rios internacionais e a sua falta de monitorização. A revisão da Convenção de Albufeira será inevitável, tal como a elaboração dos planos de seca, e a contenção dos perímetros de rega e usos desadequados de água no Alqueva, no Mira e noutros. No curto prazo serão criadas várias ‘fábricas da água’ para a sua reutilização tanto em cidades como em zonas agrícolas. 

A agricultura terá um papel muito destacado no nosso futuro sustentável multiplicando os sistemas de protecção integrada e biológica em cadeias curtas entre produção e consumo – ‘do prado ao prato’ como propõe do Pacto Ecológico.

Todas estas grandes mudanças do futuro acarretarão também uma mudança na valorização do território e das paisagens. As Áreas Protegidas e os ecosistemas naturais são o nosso garante de coisas vitais – da saúde pública à biodiversidade, aos recursos vitais como água, solo e ar.

O turismo não poderá ser feito das multidões massificadas. O futuro do turismo não irá assentar na insustentabilidade e Portugal tem óptimos recursos para turismos muito diferentes, como por exemplo de saúde, termal, ecológico, bem-estar, reabilitação, para mais estimulando a investigação científica. Tudo isto trará não só novos e sobretudo melhores empregos. Algo do género já está a preparar-se em Loulé com o projecto ABC Active Life, com várias componentes, incluindo o estudo de mosquitos que provocam a malária ou dengue e que as alterações climáticas trarão.

Portugal não precisará assim de mais aeroportos para o turismo, mas sim de melhor turismo e por isso o Montijo não será construído. Em contrapartida teremos finalmente não só o TGV como uma rede ferroviária completa, útil a residentes e visitantes.

Mudanças rápidas e novo normal

Grandes mudanças irão, pois, atravessar os nossos hábitos e, tal como sabemos de experiências anteriores, num instante elas tornam-se o novo normal. Foi assim que nos habituámos aos telemóveis, à iluminação led, a abandonar os sacos de plástico, ao tele-trabalho… 

A economia circular irá alterar muito positivamente a nossa ideia arcaica de ‘lixos’ – se estes fossem todos utilizados, só a UE pouparia 35% dos recursos naturais que usa. Acima de tudo os plásticos, não só se restringirão ao indispensável, como darão origem a sofisticadas indústrias de grande input tecnológico e científico para a sua transformação.

Em todos estes futuros desejáveis e possíveis, cinco coisas estarão transversalmente presentes. Uma é o papel da ciência e do conhecimento (aplicado e fundamental) que terá de ser muito reforçado e independente como se viu nesta pandemia.

Outra é o papel dos jovens que já mostraram o seu potencial dinâmico e manterão a sua voz bem audível e sua acção visível – veja-se as centenas de jovens de todo o mundo que já estão mobilizados para ajudar a continuar a “Grande Muralha Verde” de África plantando um milhão de árvores para impedir que o Saara avance.

Um terceiro aspecto será o empenho colectivo no combate às AC e à ruína da biodiversidade, pois, como também se viu com a pandemia, prevenir é melhor do que lidar com consequências que podem ser devastadoras.

Um quarto aspecto é o da equidade e justiça, combate às desigualdades e à pobreza. Como disse António Horta Osório ao Expresso, “as desigualdades são sempre um obstáculo à modernização e ao desenvolvimento equilibrado e sustentado dos países”, sendo essencial envolver todos na tão necessária “mudança para um modelo económico, e de vida, fundamentalmente diferente do atual”.

Por fim, e para que tudo isto aconteça, o futuro não poderá escapar a uma decisão inevitável: acabar com a batota criminosa dos off-shores que inviabiliza qualquer projecto de sustentabilidade, racionalidade e civilização. Portugal é o 3º país da UE onde mais dinheiro se encontra em off-shores seja de fortunas privadas, seja de empresas. Nenhum país sobrevive a ser roubado por dentro.

De resto, no futuro, a Europa, que alguns quiseram ver desmantelada, irá conseguir ‘pôr o homem na lua’, com o Pacto Ecológico e Fundo de Transição Justa, e a harmonização da política fiscal entre os países para acabar com a concorrência desleal e com os vistos gold. Na Europa e no mundo, um novo Estado Social será reconhecido não como um abuso sobre a iniciativa privada, mas como uma expressão de civilização. Os governos, autarquias, ONG e empresas irão movimentar-se para se conseguir atingir as metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável lançados pela ONU até 2030. Iremos viajar menos, teletrabalhar mais, criar novas rotinas de mobilidade e de produção e consumo.

A Europa e o futuro novo presidente dos EUA encontrarão num novo Green Deal um factor de unidade e prosperidade não só para Eixo Atlântico mas também para o Sul Global. O futuro do futuro é com todos, sem excluir e sem esmagar ninguém.

Texto publicado no jornal Expresso de 25 de abril de 2020

Um pensamento em “Que Futuro tem o Futuro? por Luísa Schmidt”

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