Do toque de Midas a uma renovada ética ecológica

Por Filipa M. Ribeiro*

Toque-de-Midas-A-Febre-dourada-vai-invadir-a-estacao-capa

Há que definirmo-nos em relação à natureza e não a natureza em relação a nós, estabelecer uma convivência harmoniosa de base simbiótica entre ela e nós, ao contrário do esclavagismo de espécies com que actualmente nos pautamos. Só assim é possível:

a) consciencializarmo-nos do nosso papel no mundo e de como poderemos auxiliá-lo a resolver a crise ambiental e as alterações climáticas que ora nos assolam;

b) consubstancializar a nossa atitude numa maior responsabilidade e emancipação que dê significado ao total respeito pela ciclicidade dos processos naturais de evolução e sustentabilidade, num claro rompimento com a visão tradicional humanista de incidência económica que acentua, estimula e valoriza mais a sua exploração e utilização como geradora de riquezas, do que como geradora e alimentadora de vida.

Tendo dado pela falta de Sileno, seu mestre e criador, Baco resolveu procurá-lo. Mas em vão, pois o mundo era infindo e falho de meios de comunicação, mesmo para os deuses. Como era hábito, o velho andara a beber e na rambóia até perder o norte. Porém, uns camponeses encontraram-no e levaram-no ao rei Midas, que durante dez dias e dez noites, o manteve junto de si no meio de grande alegria. Ao décimo primeiro dia levou-o de volta a Baco, entregando-o são e salvo. Então este, reconhecido, decide recompensar o rei concedendo-lhe um desejo, fosse ele qual fosse. Aí Midas pediu que tudo em que tocasse fosse transformado imediatamente em ouro. Baco concedeu-lhe isso embora achasse que o outro podia ter feito melhor escolha. Midas, porém, maravilhado com o dom recém-adquirido, experimentou-o com júbilo de volta a casa, mudando em ouro aqui uma pedra, ali um ramo, acolá uma maçã, por aí fora. Todavia, quando teve fome, e pegou no pão para comer, ele transformou-se em ouro, sucedendo igualmente ao vinho e demais iguarias que tanto gostava. Enfim, reconheceu que alguns desejos se podem tornar maldições, como no caso lhe estava a suceder…

Ora, em termos ambientais, também a nossa sociedade tem sido notória pela apetência para dar continuidade ao desejo de Midas, tentando transformar em profícuas mais-valias tudo aquilo em que a natureza e a História a favoreceu: um património cultural, étnico, paisagista, edificado, climático e campestre de excelente qualidade que, se reconvertido para valores de troca imediata, consumido e dado a consumir, fará do turismo aquela galinha dos ovos de ouro, espécie de El Dorado dos tempos modernos que nos propiciará um franco e desejado desenvolvimento.

Mas, conhecendo o que aconteceu a Midas, a quem um simples desejo acarretou excelsa maldição, há ainda quem tenha invertido o processo transformando em porcaria tudo aquilo em que toca. Em Portugal, foi assim em muitos PDMs, utilizando-os não para planear o urbanismo mas para poder recorrer a certas e determinadas verbas. Foi assim em Institutos Politécnicos e Universidades, não para formar massa crítica mas para se aproveitarem das migrações estudantis portuguesas. Foi assim em algumas Agenda 21 Local que foram compradas já feitas a empresa locais, para contornar a cidadania participativa, o debate político e discussão que ela exigia. Foi assim em alguns PR (Planos de Reabilitação) do Polis, que foram entregues nas mãos dos empreendedores da construção civil e gabinetes de arquitectura com necessidades (ou amizades) especiais. Foi assim nos festivais de cinema e audiovisuais e, sobretudo, igualmente assim no aproveitamento e interpretação dos recursos ambientais.

Vendem-se espaços públicos a construtores civis, onde estes constroem autênticas aberrações ambientais e paisagísticas. Utilizam-se transportes públicos para obrigar os cidadãos a comprar e usar carro. Apaga-se o comércio local com parquímetros e parques de estacionamento inoperativos. Esvazia-se famílias de cidades históricas. Corroem-se as valências culturais com certames e instituições onerosas estimulando-lhes a dependência subsidiária. Programam-se os espectáculos e actividades sócio-culturais de acordo com as acções de promoção das etiquetas livreiras, musicais e agências nacionais. Caprichou-se na proliferação de tascas e multiplicaram-se os festivais de vomitório e enfartamento. Enfim, estilhaçou-se a identidade gregária para se venderem os seus cacos avulso, numa tentativa de aumentar a receita sem recorrer à produção de valores. Derreteu-se o ouro que nos valia para fazer uma talha dourada que, ao invés de enfeitar, nos está a amortalhar, e a outras espécies.

Portanto, não basta fazer festivais e dar festas de papas e bolos, bailes de mercado e utilizar os velhotes para comprar o voto aos seus familiares, para nos considerarmos modernos e actuais, porque o que mais importa é contribuir com a nossa acção política para resolver os problemas do presente. E isso nunca se fará com métodos e atitudes do passado, a não ser que queiramos enterrar o futuro na vala dos genocídios comuns, à semelhança do que fizemos nas famigeradas guerras do nosso “abençoado e narcísico” antropocentrismo, nascido anteriormente, mas tendo como pilares de referência Aristóteles, a que se seguiu Francis Bacon, depois Descartes, com estações intermédias em 1914-18 e culminou com a guerra de 1942-1945, numa enorme e apoteótica celebração de imortalidade do divino homem edificada com a sua acção mortífera sobre os outros homens, animais e plantas de todo o planeta. Isto é, se queremos ser civilizados então devemos ter atitudes de cultura e civilidade susceptíveis de promoverem a vida e o seu berço, a natureza, e não a morte através da exploração desenfreada e inequívoca destruição do mundo natural, do qual dependemos e a vida, como os demais seres viventes conhecidos, incluindo os que não carecem de sol e oxigénio para o fazerem, ou os habitantes das profundidades oceânicas.

Os Girassóis

(Os Girassóis, de Van Gogh)

Há mais vida para além da nossa, mas acontece que essa vida sobrevive muito bem sem a nossa, e esta, a nossa, nunca sobreviverá sem essa vida, sem a ecosfera tal e qual como a conhecemos e enquanto mantiver os valores de salubridade suficientes e necessários à nossa existência. Pelo que importa assumir uma nova posição ética, consentânea com as nossas maiores dificuldades actuais, e consciencializarmo-nos de que elas não são só nossas embora tenhamos sido nós a produzi-las, a provocá-las, com os nossos pensamentos, religiões, economias, governos, comportamentos e atitudes. E essa ética já existe, transposta e subscrita por Naess (1948), embora possa vir a ser melhorada e tornada mais compatível com a actualidade global, se for igualmente melhor conhecida dos humanos, mais praticada pelos povos e superiormente contemplada nas políticas e enquadramentos legais das diferentes governanças europeias e ocidentais, enunciada conforme se segue:

1 – O florescimento da vida humana e não humana tem valor em si mesmo (valor intrínseco ou valor inerente), independentemente dos objectivos humanos.

2 – A riqueza e a diversidade de formas de vida contribuem para a realização desse valor e são também valores em si mesmos.

3 – Os seres humanos não têm o direito de reduzir esta riqueza e diversidade, excepto para satisfazerem necessidades vitais.

4 – A qualidade da vida humana e a afirmação das diferentes culturas são compatíveis com uma substancial diminuição da população humana, aspecto indispensável ao florescimento da vida não humana.

5 – A actual interferência humana no mundo não humano é excessiva e a situação está a agravar-se rapidamente.

6 – As políticas têm de ser alteradas, face à gravidade da situação. Estas políticas têm de afectar as opções económicas e tecnológicas e as estruturas ideológicas.

7 – A mudança ideológica tem de se centrar na aposta na qualidade de vida, em vez de uma adesão a um elevado padrão material. Esta mudança traduzirá a tomada de consciência da diferença entre grandeza e grandiosidade.

8 – Os que subscrevem estes pontos de vista têm a obrigação, de forma directa ou indirecta, de tentar implementar as mudanças necessárias.

Ou seja, se quisermos mudar podemos mudar, da mesma forma que se quisermos continuar a empestar o planeta, e a transformá-la em caca com o nosso Toque de Mírdias podemos continuar a fazê-lo, embora saibamos pelos Bangladeshs da actualidade que isso não nos será facultado durante muito mais tempo. E lavar as mãos, como Pilatos, não leva a nada ou, ainda piora, mesmo que o façamos com detergente Al Gore!

*Filipa M. Ribeiro – Jornalista de ciência, mestre em comunicação e educação em ciência, doutorada em sociologia da educação, mestranda em história da ciência. Fundadora do Stop Suicídio, ativista pelos direitos humanos e dos animais. E, sobretudo, dedicada incondicionalmente a conhecer.

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