Do interior para o exterior: notas para uma cidadania consciente

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Por Filipa M. Ribeiro*

Este artigo é uma síntese de um ensaio mais desenvolvido que consiste numa orientação teórica em evolução que se pretende simbiótica entre a ideia de sustentabilidade e a preparação do futuro, com relevante ênfase nos Direitos Humanos, na Ética da Terra, no desenvolvimento e na cultura. 

I – Entreter ou resolver

Passados quase 54 anos, continuamos a dar prioridade a uma crise de mercados virtuais e a negligenciar as mudanças que temos de fazer e de ser de forma ainda mais premente. A mudança vai acontecer, mas é melhor que seja pela acção consciente de cada um de nós e não pela acção compulsiva de acontecimentos como crises financeiras ou desastres naturais. Esta acção consciente passa, primeiro, por alargar o nosso círculo de responsabilidade e responsabilização pela forma como vivemos diariamente em relação ao Ambiente, aos Animais e à Terra. Segundo, viver diariamente o ideal de trabalhar para o benefício material, social e espiritual de todo o planeta. Terceiro, agir, com conhecimento e vontade, para resolver as situações e formas de sofrimento infligidas na humanidade e na natureza. 

II – A SOCIEDADE SOMOS todos NÓS

Tudo pode ser reciclado, incluindo as bases essenciais da nossa identidade e cultura. É uma nova atitude perante a vida, que nasce da observação, da reflexão e da prática de muitos grupos e pessoas que, em todo o mundo, se aperceberam que atravessamos uma crise civilizacional grave, para a resolução da qual se torna necessário demolir velhos (pre)conceitos, valores e poderes, bem como definir caminhos alternativos que valorizem a criatividade individual e coletiva que respeite a vida, o ambiente, a natureza, o ecossistema, a atmosfera, a água e a condição humana.

III – EVOLUÇÃO É AÇÃO

É significativa a diferença entre agir e reagir: agir é participar; reagir, é sujeitar-se a. Só quem age é verdadeiramente (r)evolucionário. Parar, desincentivar ou adormecer essas preocupações, sob o argumento da actual crise socioeconómica, é uma reação que obriga a atirar fora o desenvolvimento e progresso conseguido por milénios de estudo, esforço e atualização.

IV – EQUILÍBRIO OU ETERNIDADE?

Na perspetiva biocêntrica somos apenas mais uma das estratégias da vida para se tornar eterna. Na perspetiva ecocêntrica, somos tão-só membros de uma espécie que interage com as demais na tentativa de manter equilibrada a sobrevivência do ecossistema terreno. Na prática, as duas completam-se e exigem-nos que observemos cuidadosamente a nossa conduta porquanto se fizermos perigar o equilíbrio perdemos todos.

V – Biodiversidade e efeito borboleta

Todos os dias 150 espécies desaparecem para sempre. Pugnar por uma democracia direta, participativa e de base requer o acesso universal à informação, à tomada de consciência coletiva dos fatos e problemas de cada qual e de todos, bem como uma diferente responsabilização do cidadão pelo seu habitat, num díspar envolvimento na assunção individual e pública da cidadania, e do respeito (legalizado) pelos animais.

VI –  ESPECISMO E MULTICULTURALIDADE

Chegou a altura de inverter o curso das decisões e rejeitar todas e quaisquer práticas culturais que ponham em causa a integridade da fauna e da flora de um lugar, ou as suas particularidades geográficas e territoriais, não só quando provocam elevada mortalidade e extinção de espécies, como é o caso de inúmeros rituais e tradições, sacrifícios e eleição de símbolos emblemáticos para marketing, ou de tomar medidas radicais de desinfestação, por pesticidas e herbicidas de efeito durador nos solos e/ou atmosfera, e ainda a promoção de eventos de diversão com animais (touradas, circos, lutas, exposições não-científicas) e comercialização de espécies selvagens ou exóticos, e enveredar definitivamente por uma opção generalizada de atitudes e comportamentos que difundam e disseminem a diversidade específica e cultural, de raças e credos, pois os ambientes (e nações) mais ricos, fecundos e sustentáveis, não são os que se resumem e fecham sobre si, mas os que se cambiam e multiplicam contemplando a biodiversidade.

VII – ÉTICA E INSTINTO

Repensar o uso do solo arável, estabelecer prioridades e otimização da escolha nas sementes, segurar e acautelar as sementeiras dos locais passíveis de derrocadas, enxurradas ou incêndios, promover a investigação agrícola e pecuária, proteger e preferir as espécies autóctones, bem como reimplantar a conduta dos “três R’s” (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), apresenta-se não só como uma necessidade económica e existencial, ou de prevenção do caos territorial, mas igualmente como um imperativo ético. Porque se não for feito está-se a defraudar o instinto de sobrevivência dum povo e duma nação, está-se a matar directamente ou em diferido a (esperança de) vida de muitos, senão quase todos, os portugueses e portuguesas menos abonados e dependentes do orçamento do estado.

VIII – Economia e sociedade

O modelo de sociedade que assenta no gigantismo centralizador, com estruturas socioeconómicas complexas e burocratizadas, impede a observância da sustentabilidade, nomeadamente a económica, porque facilita o desperdício de energias e a concentração de poderes, o controlo hegemónico dos processos de produção e consumo, apagando a participação consciente e responsabilizadora do cidadão vulgar das tomadas de decisão sobre a sua própria vida.

IX-  ESTÉTICA E CULTURA

Preservar e melhorar o património cultural, natural, atmosférico, reanimá-lo e dignificá-lo com sentidos renovados e abertos a semânticas persecutórias, pode ser uma tarefa difícil de executar e implementar, com dificuldade na motivação de intelectuais, artistas, cientistas, publicistas e comuns usufruidores, porém é um desafio e um designo moral a que ninguém pode, cobardemente, virar as costas, uma vez que o desperdício de tempo, meios, recursos, aprendizagens, ideias, entrosamento sócio-espacial, de níveis de identidade e diversidade daí resultantes, nos poriam em séria incompatibilidade com a existência humana e planetária, atirando para o lixo da eternidade um contributo de elevada precisão e valor, degradando continuamente a comunicação e entendimento entre humanos, ou entre estes e os não humanos, mas também o de molestar dos ecossistemas com modelos e formas irreversíveis que podem tornar-nos a vida insuportável, desprezível, desajustada, atrofiada e de moribunda humanidade. Aliás, entender a cultura como uma estratégia para humanizar o planeta, não é uma prosopopeia retórica e medieval, de cavalaria e evidente quixotismo, mas um ato indecoroso, aberrante e suicidário, como igualmente um handicap espiritual que traduz a nossa incompetência para entender a realidade e as multifacetadas perspetivas que a compõem, que pode originar raros rasgos de génio mas abundantes gestos e exemplos de depredação necrófaga, e de exalada decomposição das condições, conceitos e teorias da vida na terra. E isso é imoral, inestético e abjecto.

*Filipa M. Ribeiro – Jornalista de ciência, mestre em comunicação e educação em ciência, doutorada em sociologia da educação, mestranda em história da ciência. Fundadora do Stop Suicídio, ativista pelos direitos humanos e dos animais. E, sobretudo, dedicada incondicionalmente a conhecer.

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