Primeiras Impressões

(Crónica – Observatório das Eleições Brasileiras 2018)

Por Paulo Timm*

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Pedro Cardozo, o “Agostinho” de A GRANDE FAMÍLIA fala para os portugueses – https://www.facebook.com/diogo.legionario/videos/1877001882419267/?t=459

O processo eleitoral correu satisfatoriamente no Brasil, apesar das manipulações dos fakenews, não restritas ao nosso país. Vamos ter que aprender a lidar com isso no futuro. Uma constatação positiva: Parece que  demos um fim às campanhas milionárias financiadas com desvio de recursos públicos.

Quanto aos resultados, demonstram que o país é bastante dividido entre esquerda x direita. Nas últimas eleições , de 2002 a 2014, a maioria ficou com a esquerda. Desta vez, ficou  com a direita ou o que se parece com um e outro, além do que diferencia um do outro enquanto Projetos para o Brasil. O país, enfim, está dividido ideologicamente, o que não é ruim, como muitos pensam. Ruim é a intolerância e pior ainda o recurso à violência na defesa das posições. Ainda chegaremos ao ponto em que estão Portugal e Chile, onde as diferenças, profundas, são partes da vida pública. Ruim, também a diluição das posições mais centristas, até aqui representadas nacionalmente pelo PMDB, o qual foi varrido sem apelação.

A direita, porém, sofreu maiores traumas do que a esquerda.

Vejamos:

A hegemonia da direita voltou aos setores mais afinados com o discurso autoritário, destroçando o PSDB, que desde 2004 se afirmara sobre velhas lideranças oriundas do regime militar. Foi a consequência da falta de  um ajuste de contas mais profundo com os crimes daquele regime. Tergiversamos demais. Acresça-se ao desempenho pessoal de Bolsonaro neste processo, encarnando não apenas uma imagem de anti-sistema, mas também sua articulação com grandes massas evangélicas afinadas com sua defesa da família tradicional e valores conservadores, a emergência de dois Partidos de direita: O Novo, de Amoedo, e o PSL, do próprio Bolsonaro. Este ficará  com uma bancada que deverá  ser a maior da  Câmara dos Deputados – podendo chegar a 70 deputados -, acrescida, ainda pelo Centrão – e alguns Governadores de importantes Estados, mormente Minas Gerais. Com isso, os analistas calculam que o novo Presidente poderá, inclusive, aprovar Emendas Constitucionais.

A esquerda, ampliada além dos votos em Haddad no primeiro turno,  mesmo derrotada, sai vitoriosa, com amplo apoio em margem considerável do eleitorado brasileiro: 45%. Segue, nesta “esquerda”, a hegemonia do PT , que conseguiu uma grande bancada- 56 deputados –  na Câmara, vindo a  reafirmar-se, junto com PCdoB no Maranhão e em vários Estados do Nordeste, como seu mais importante segmento.  Quebrou a cara quem imaginou que a LAVAJATO destruiria o PT. Abateu, sim, algumas lideranças, mas o Partido vai dar trabalho por muitos anos, distante de Haddad, a quem foi oferecida, desdenhosamente, a Presidência do Instituto Perseu Abramo.

O PDT e Ciro Gomes cresceram no cenário nacional, mas falta-lhes maior envergadura orgânica interna e de relações com a Sociedade Civil e Inteligência nacionais para disputar com o PT a liderança na Oposição. Não obstante, tudo indica que Ciro se preservou para tentar voltar em 2022 como um candidato viável. O PSB poderá ter um novo papel,  com eixo no Estado de Pernambuco, provavelmente em aliança com PDT, Marina, PPS e alguma outra agremiação de centro esquerda que emerja neste processo. Já surge no horizonte, também, uma Frente Democrática de Oposição a Bolsonaro, integrada não por Partidos, mas personalidades nacionais, dentre eles vários consagrados Cientistas Políticos, como Wanderley Guilherme dos Santos, abrindo-se, com isso, dois caminhos para a esquerda: Resistência ao que entendem como fascismo em curso, defendida pelo PT, e Oposição Democrática, por parte dos que têm uma análise de que o curso é de autoritarismo radical, mas com sobrevivência de brechas institucionais, tanto no Congresso, como na Justiça, que devem ser explorados.

Entre as causas do fracasso de Haddad também dois entendimentos. Para o PT e aliados houve manipulação do processo desde o impeachment de Dilma, culminando na prisão de Lula e seu impedimento à candidatura, além da enxurrada da fakenews financiados ilegalmente por grandes empresas. Para outros, mais inclinados, agora, à criação da mencionada Frente Democrática, houve erro de Lula e PT ao insistirem com candidatura própria. Explicam:

Com o deslocamento da hegemonia da direita para um extremo francamente autoritário e a incapacidade do PT em construir uma Frente Democrática, com participação de liberais, empresários e classes médias, capaz de lhe fazer frente com folga competitiva, confundiu-se o sentimento anti-sistema com o anti-petismo, debilitando a alternativa HADDAD.

Confirmado Bolsonaro, há apreensões generalizadas, tanto do Mercado, quanto das opiniões externa e interna, sobre seu caráter e estabilidade. Poderá, continuar o aprofundamento do  autoritarismo legal,  no sendeiro do Lawfare, que hoje vai se identificando com um novo tipo de Estado de Exceção, ou , simplesmente  fazer um governo errante, tropeçando nos seus próprios passos. Isso se não descambar para uma variante do Presidencialismo de Coalizão, com o recurso a um Partido de Massas, com capacidade de pressão sobre o Congresso,  que embora seja mais provável que penda para o fascismo descarado, pode sempre surpreender. Sua ideologia é difusa, devendo oscilar entre sentimentos arraigados de nacionalismo militar, que impõe um mínimo de soberania em decisões estratégicas e corporativas e um vago liberalismo. Deverá, coerente com sua formação militar, a ser fortemente centralizador, sem, contudo, suficiente capacidade política – técnica e administrativa – para operar como árbitro de decisões conflitantes de seus colaboradores. Resta, neste processo, saber quem o influenciará, à falta de ideologia, partido, colaboradores articulados. Aqui duas vertentes: A família e o próprio Exército. Até que ponto, por exemplo, esta instituição tolerará afundar-se em sua boa imagem na sociedade em decorrência da instabilidade de Bolsonaro? Não creio, pessoalmente, que as Forças Armadas aceitem ser levadas à qualquer aventura golpista.
Quem viver verá…. VIVA A DEMOCRACIA!

* Paulo Timm aposentado, é economista, formado pela UFRGS. Pós-Graduado na ESCOLATINA, da Universidade do Chile e CEPAL/BNDES. Foi professor da Universidade de Brasilia – UnB – e Técnico do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em Brasília. Foi Presidente do Sindicato dos Economistas e do Conselho de Economia do Distrito Federal. Foi Diretor Técnico da Companhia de Desenvolvimento do Planalto – CODEPLAN, Secretario de Estado de Meio Ambiente do Governo do Distrito Federal e Administrador do Lago Sul de Brasília, na década de 1990 Foi também candidato ao Governo de Goiás, em 1982 e ao Governo do Distrito Federal, em 1994, pelo PDT, Partido que fundou, ao lado de Leonel Brizola, em 1979, subscrevendo a histórica CARTA DE LISBOA.

 

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