Não haverá futuro sem ciência

Crónica n.º 14 – Observatório das Eleições Brasileiras 2018

Por Renato Janine Ribeiro*

imagem USP

Esta segunda-feira, menos de 24 horas após a proclamação de Jair Bolsonaro como presidente eleito do Brasil, uma página no Facebook conclamava os alunos de engenharia da Universidade de S. Paulo a invadir a, mais esquerdista, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da mesma universidade. A violência de extrema-direita parece estar liberada. Embora muito disso sejam meras palavras, palavras são atos, geram realidades, como qualquer estudioso sabe.

E no entanto essa agressividade verbal e física contrasta com a ausência quase total, no dia da eleição e nos anteriores, de adesivos nos carros, de bandeiras nas casas, de camisetas com emblemas dos candidatos. Embora parte dos votantes de Bolsonaro se entusiasmasse com a plataforma de seu eleito, a grande maioria votou nele – ou em seu rival Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores – sem grande animação. O que é um dos raros aspectos positivos, talvez, no acontecido: uma caça às bruxas não parece ter apoio popular. A ver, de todo modo.

***

Enquanto isso, o que me preocupa, a par de uma pauta fortemente regressiva em direitos humanos, é a falta de futuro para uma economia em crise. Parte dos empresários, e da mídia, investiu na esperança de que Bolsonaro retire os controles estatais que ainda existem sobre a economia brasileira, o que libertaria o espirito animal dos empreendedores. Mas aqui há um enorme problema.

O problema é que muitos empresários brasileiros, mesmo ao criticarem a intervenção do Estado na economia, querem mais Estado! Querem que o Estado adote as políticas de seu gosto, entre elas, a privatização do que resta em suas mãos, a redução dos direitos trabalhistas (já bombardeados por uma reforma recente, mas que não aumentou o emprego), sociais e ambientais.

Não parecem ter noção de que uma pauta desse tipo pode dificultar exportações de produtos brasileiros. Com efeito, vários de nossos compradores são atentos cada vez mais aos direitos ambientais. Outros também valorizam as condições de trabalho. Além disso, caso se deflagre a anunciada perseguição aos LGBTs, as comunidades homossexuais de outros países, algumas delas com forte poder aquisitivo, poderão tomar represálias em relação a produtos brasileiros.

Dá vontade de repetir as palavras de Justin Trudeau, ao tomar posse como primeiro-ministro do Canadá e explicar a quem lhe perguntava por que nomeara um gabinete com metade de mulheres: “Porque estamos em 2015”. E de contrastá-las com a declaração de Bolsonaro, na semana passada, sobre seu desejo de regressar cinquenta anos no passado, ao que acrescentou: na segurança e nos costumes. Pois bem, é justamente nos costumes que ele pode, com sua proposta, criar problemas para a globalização da economia brasileira. Afinal, não foi esta semana que o presidente mundial da Apple disse o quanto é feliz por ser gay?

Para ninguém entender errado o que digo: nada disso impedirá a Apple de exportar para o Brasil. Mas pode reduzir a vontade da Apple, ou a de consumidores finais, de comprar produtos brasileiros.

Há coisa mais grave. Na pauta dos empresários, e do candidato agora eleito, educação, ciência e tecnologia primam pela ausência, para dizer o mínimo. Um general próximo a Bolsonaro defendeu que se ensine, aos alunos de 15 anos, o criacionismo, ao mesmo título que a teoria da evolução. Num país que tem na educação científica um dos gargalos para seu desenvolvimento econômico, isso representa um gigantesco salto para trás.

Já contamos com um grande problema, que é a carência de bons professores em geral, e de ciências em particular, na educação básica. Uma das críticas pertinentes ao enorme esforço despendido nos anos Lula e Dilma em prol da educação é que ela não repercutiu numa melhor qualificação da mão de obra: o grande aumento do emprego se deu sobretudo nas ocupações que requerem menor inteligência e capacitação.

Vejamos o que qualquer analista internacional da economia diz hoje sobre as chaves do desenvolvimento: que o fator isolado de longe o mais importante para o crescimento é uma boa educação. Ora, como melhorá-la, se a única ênfase do programa Bolsonaro na educação é acabar com a suposta influência de Paulo Freire na formação dos jovens?

Mais que isso, na semana passada divulgou-se um documento detalhado da Frente Parlamentar Evangélica, que conta com algo entre 25 e 35% dos deputados e apoiou Bolsonaro, pregando o fim da avaliação, pela CAPES, dos programas de pós-graduação consistentes em mestrado e doutorado. Esse é o único nível de educação, no Brasil, que conta com reconhecida qualidade internacional. A geração de patentes, que nos Estados Unidos é essencialmente dependente das empresas, aqui tem uma proporção bem maior resultante da investigação universitária. Essa demanda da frente parlamentar vai contra a melhor qualificação do trabalhador, necessária para a economia.

Resumindo: enquanto nossos empresários, e vários economistas a eles associados, insistem numa pauta tradicional de retirada do Estado da atividade econômica, os analistas internacionais enfatizam o papel da educação, bem como da ciência e tecnologia. Fora do Brasil – e no Brasil também, mas mais por parte de educadores, ou de economistas da educação, do que por parte de economistas do setor empresarial – sabe-se que o mais importante é educar.

Mas nada, no futuro governo, indica uma noção disso.  O primeiro nome indicado para o ministério, o ex-astronauta Marcio Pontes, não tem um currículo de investigador que chame a atenção. É quase um factoide, sua nomeação. Porém, o que mais me preocupa não é nem a ação do governo nesta direção. É que o patronato que apoiou ou apoiará o novo governo não prioriza essa área. Parece teimar em ficar atrasado, em relação às prioridades internacionais.

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Comecei falando da possível invasão da melhor faculdade de ciências humanas do Brasil, esta segunda-feira, por extremistas de direita. Não posso esquecer que a radicalização do golpe militar no Brasil teve como um de seus importantes sinais, em 1968, o ataque por extremistas de direita à mãe desta faculdade, a então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da mesma USP, na época, por alunos da Universidade Mackenzie. De lá para cá, a FFCL gerou a FFLCH e mais sete institutos, a maior parte científicos, como de Matemática, Física, Biologia. Mas o espírito de ataque ao conhecimento de qualidade, na época, faz lembrar seu sucedâneo de hoje.

Nesta hora, além de defender os direitos humanos, é preciso também defender o conhecimento – até porque, se cinquenta anos atrás, os baixos salários e a falta de direitos trabalhistas apareciam como um insumo favorável ao crescimento econômico (ainda que dependente), hoje eles só ajudam a manter o atraso na economia.

Talvez, pela primeira vez na História, os direitos humanos e o conhecimento sejam, de maneira forte e consistente, relevantes para a produção de riqueza. Disso, infelizmente, o novo governo brasileiro não parece ter, ainda, noção.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

** Fotografia: FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP). Retirada de Folha de S. Paulo.

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