Os dados não estão lançados

Crónica n.º 13 – Observatório das Eleições Brasileiras, 2018

Por Renato Janine Ribeiro *

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Estamos a menos de vinte e quatro horas das eleições presidenciais mais tensas da história do Brasil. Ás 19 horas de domingo, em Brasília – começo da madrugada em Portugal – teremos provavelmente os resultados. Há semanas, as pesquisas marcaram clara vantagem do candidato Jair Bolsonaro. Mas uma virada começou estes dias. Se o pleito tivesse lugar daqui a uma semana, a vitória de Fernando Haddad se tornaria, talvez, provável. Por ora, é o imponderável.

Dois foram os eixos de conflito nesta eleição. Primeiro, o petismo vs o antipetismo. Lula pensou que o conflito se daria entre o golpe, que derrubou Dilma Rousseff em 2016 sob acusações especiosas (por isso, golpe), mas tendo como base política erros cometidos por ela na economia e na falta de articulação política. Como o golpe não trouxe a prometida cornucópia, Temer e os seus ficaram impopulares e os vários candidatos ligados a sua plataforma foram praticamente pulverizados na eleição.

Mas, se para Lula a oposição era entre golpe e antigolpe, para muitos a tensão se dava entre petismo e antipetismo. Aqui, por um lado, houve uma campanha implacável da mídia e da oposição, com o apoio a partir de um certo momento do patronato (mas penso que mais na última hora do que antes), para destruir a imagem tão favorável de Lula à saída do governo, em 2010. E por outro lado houve os erros do PT, não só na falta de liderança de Dilma, como também na condução da própria campanha.

Desde que Ciro Gomes se lançou candidato à presidência, em começos do ano, retomando um projeto seu da década de 1990 mas que ele tinha calado em deferência e apoio aos dois presidentes petistas, alertei que era imperioso ele e o PT se entenderem. Nenhum lado se empenhou nisso. Aparentemente, dois presidenciáveis petistas, Jaques Wagner, da Bahia, e o paulista Fernando Haddad, quiseram um acordo, talvez até dando a presidência a Ciro. Mas a cúpula do partido, com a presidente Gleisi Hofmann, e o próprio Lula, à altura já preso em Curitiba, apostaram mais alto.

Hoje, na véspera da eleição, parece que foi um erro essa aposta petista, que incluiu o golpe baixo de explodir alianças que Ciro já tinha negociado. Assim, a liderança do PT preferiu deixar o PSB neutro na disputa, a aceitar que ele apoiasse Ciro. Mágoas certamente ficaram, tanto que Ciro foi passear na Europa durante as três preciosas semanas do segundo turno.

O outro eixo de conflito foi fascismo vs antifascismo. Já antes da votação inicial, que se deu em 7 de outubro, vários – entre os quais eu e Álvaro Vasconcelos – alertamos que a pauta tinha mudado. Não era mais reverter o golpe e restaurar os projetos petistas. Devia ser barrar a extrema-direita, o que significava que o PT deveria alterar algumas de suas palavras de ordem, em especial as anti-PSDB. Com certo atraso, assim fez o candidato Haddad.

O atraso não foi culpa dele. O PT na verdade se dividiu historicamente entre uma posição purista e uma mais pragmática. Isso não quer dizer que a primeira fosse mais honesta que a segunda. O purismo com frequência é praticado por quem nada tem a perder, ou pouco, com uma derrota eleitoral. O pragmatismo pode ser escolhido por quem tem muito a perder, ou a ganhar, dependendo do resultado. Em 2002, a vitória pragmática foi altamente positiva para os mais pobres do Brasil. Persistir no purismo teria sido bom para a consciência moral de petistas mais abonados, mas não para os necessitados de políticas públicas.

Repetiu-se um pouco o dilema de 2002. Depois de perder três eleições presidenciais sucessivas, Lula avisou, por volta de 2000, que só disputaria se fosse para ganhar. Antes, ele era aclamado candidato, mas obrigado a adotar plataformas duras, radicais. Ele decidiu que queria vencer e, para isso, precisava de alianças. Teve um empresário como vice. Contratou um profissional do marketing eleitoral. Chamou a si a decisão sobre alianças e programas. Deu certo.

Desta vez, passada a primeira volta, Haddad foi forçado a perder tempo em discussões com uma cúpula um tanto purista. Basta um caso. A direita assumiu as cores nacionais desde a campanha pelo impeachment de Dilma. A esquerda aceitou isso, o que foi um erro, e vestiu o vermelho, outro erro. Após o segundo turno, adotou o verde-amarelo nacional. Pois não é que, dentro do partido, houve reclamações? Enquanto a campanha exigia que fosse para a rua, um radicalismo de ocasião a retinha dentro de gabinetes.

Os dados somente serão lançados amanhã, nas urnas eletrônicas. Se Haddad ganhar, será por uma virada de última hora, quase um milagre. Terá que construir sua governança. Se Bolsonaro ganhar, terá de início maioria no Congresso. O problema é que seu programa de governo é a confusão mais acabada que o Brasil já presenciou. Se aplicar metade dele, conseguirá brigar com os países árabes (superávit comercial nosso com eles: 7 bilhões de dólares) ao transferir nossa embaixada para Israel, e com a China (nosso superávit: mais de 20 bilhões) ao prestigiar Taiwan e ofender um regime que, parece, ele considera comunista. Aparentemente, os empresários que o apoiam batem na tecla única das privatizações e ignoram por completo a importância da educação, da ciência e da tecnologia no desenvolvimento econômico.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

 

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