Nada de novo na Frente Eleitoral!

Crónica n.º 12 – Observatório das Eleições Brasileiras 2018
Por Renato Janine Ribeiro*

Haddad

Nada de novo na Frente Eleitoral! Mais uma semana se passou, e Bolsonaro, o candidato da extrema-direita que a mídia brasileira teima, ao contrário da imprensa internacional, em chamar de “direita”, atinge uns 60% das intenções de voto. Enquanto isso, seu adversário Fernando Haddad, civilizado, professor universitário, educador, patina nos 40%.

Nenhum dos candidatos que saíram da primeira volta, no espectro que separa a centro-esquerda de Haddad e a extrema-direita de Bolsonaro, deu apoio a Haddad. Somente Boulos, à sua esquerda, e Ciro Gomes, outro nome de centro-esquerda, o apoiaram. E Ciro o fez bem mais ou menos. Fernando Henrique Cardoso, embora cada vez mais isolado e mesmo desrespeitado no seu PSDB, que um dia quis ser social-democrata, prefere se colocar neutro.

Na melhor das hipóteses, os candidatos – e muitos dos eleitores – intermediários pedem um mea culpa do PT, por uma lista quase interminável de pecados, uns reais, outros imaginários. Reais: a complacência, senão a prática, da corrupção; uma gestão infeliz da economia, no governo Dilma. Não tão reais, ou nada pecados: a política de cotas para egressos de escolas públicas e, no seio destes,  descendentes de africanos e de indígenas; a ambição de fazer do Brasil uma referência internacional, o que Lula conseguiu, Dilma descuidou e Temer enterrou; os projetos econômicos ambiciosos, um dos quais resultou na descoberta do pré-sal. E a lista só aumenta. Em muitos casos, é apenas um pretexto para não formar uma frente antifascista em favor do candidato do PT.

Há tentativas dessa frente, umas vindo do PT e com o risco de serem linha auxiliar de um partido que se desgastou, outras que vêm de intelectuais ou de movimentos independentes. Mas até o momento nenhuma se firmou.

***

O que não comentei até agora: dos cinco principais Estados do Brasil, a centro-esquerda elegeu o governador em apenas um, Pernambuco, e ainda assim um aliado apenas circunstancial do PT – Paulo Câmara, do PSB. Pior que isso: nos quatro Estados maiores em população e riqueza, nenhum nome progressista foi para a segunda volta, que em quase todos eles está sendo disputada entre partidários do impeachment/golpe de 2016 e apoiadores de Bolsonaro. Aliás, nenhum dos finalistas nestas eleições está atacando Bolsonaro. A única diferença que existe está entre quem o defende exaltadamente e os que, como aqui se diz, “fazem a egípcia”, ficam olhando de lado como se não fosse com eles.

As casas legislativas federais e estaduais, todas elas renovadas, marcaram um triunfo acentuado dos grupos de extrema-direita. O sistema proporcional vigente no Brasil dificulta a obtenção de maiorias, mas o partido de Bolsonaro, uma agremiação antes minúscula, hoje é a segunda bancada na Câmara, e se ele for eleito logo ultrapassará o PT, hoje o maior grupo parlamentar (cada um tem cerca de 10% dos deputados). O poder é um ímã e Bolsonaro terá maioria, pelo menos nos primeiros meses ou ano.

Muitos já fazem seus cálculos. O empresariado e os partidos de direita se esmeram em dizer que ele não é tão feio quanto se pinta. Esperam poder negociar com ele. A esquerda alerta para a ilusão de Von Papen, que em 1933 recomendou Hitler como chanceler, imaginando que o grande capital o manipularia. Deu no que deu.

Na comparação com Trump, as instituições brasileiras são muito fracas. O Judiciário é extremamente tímido com Bolsonaro. São várias as acusações que ele acumulou ao longo dos anos, escapando de todas. Difícil imaginar que os poderes constitucionais consigam, ou mesmo queiram, refreá-lo.

Enquanto isso, ele mostra não ter controle sobre sua base. Afirma uma coisa, seu vice diz outra. Seu guru econômico multiplica declarações insensatas do ponto de vista da economia e inoportunas politicamente. Parece haver uma bagunça na possível futura liderança do País. O possível chefe da principal pasta ministerial, a da Casa Civil, prometeu demitir 25 mil ocupantes de cargos de confiança. Mas só existem 23 mil. Não perdeu o aplomb: demitirá 20 mil, disse. Há o fundado receio de que uma equipe totalmente despreparada assuma o governo. O Brasil já viveu isso com Collor, em 1990, e pagou caro pela aventura. Desta vez, a incompetência parece ainda maior. Mas o empresariado prefere não enxergar nada disso.

O deputado propôs ensino a distância para as crianças de seis anos: seriam alfabetizadas sem professor. Além do absurdo da medida, em termos pedagógicos, ela implica o fim da merenda escolar, do uniforme dos calçados entregues pelo Estado e que são decisivos para os mais pobres. Não se pensou, tampouco, que sem a escola as mães terão dificuldade em sair para trabalhar. A leitura que faço é que as políticas de governo são propostas de forma irrefletida, como jorros incontidos de fala.

Outro próximo de Bolsonaro recomendou o ensino, nas aulas de ciência, a par da teoria da evolução, da doutrina criacionista. Mais uma vez, é curioso que os empresários não tenham protestado. Sabe-se que a baixa qualificação da mão de obra brasileira tem a ver com a má qualidade das aulas de ciências. Mas, se parte delas vai ser substituída por religião, só poderá piorar a economia. Contudo, os empresários aplaudem as prometidas privatizações e descuidam da formação de mão de obra.

Esse, o quadro preocupante a uma semana das eleições. Possivelmente, o Brasil e vários de seus Estados vão eleger governantes não apenas conservadores, mas muito incompetentes. A crise brasileira somente vai se agravar.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

** Fotografia retirada de agenciapatriciagalvao.org.br

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