Bolsonaro parte na frente

Crónica n.º 11 – Observatório das Eleições Brasileiras 2018
Por Renato Janine Ribeiro*

mw-680Na quarta-feira, apenas três dias após um primeiro turno em que Jair Bolsonaro, o deputado de extrema-direita, teve 46% dos votos contra 29% de Fernando Haddad, as primeiras pesquisas – realizadas entre segunda e terça-feira – davam perto de 58% para o primeiro, contra uns 42% para Haddad. Mais grave que isso para os setores democratas, foram poucas as adesões dos candidatos derrotados ao ex-ministro da Educação de Lula.

Se Guilherme Boulos, do pequeno PSOL, à esquerda do PT, deu logo seu apoio, Marina Silva, que não obteve sequer 1%, Geraldo Alckmin, do ex-poderoso PSDB, Joao Amoedo, do ultraliberal Partido Novo, e Henrique Meirelles, o banqueiro que concorreu pelo MDB do presidente Temer, se calaram ou se negaram explicitamente a pregar o voto em Haddad, embora também tenham dito ou insinuado que não votariam em Bolsonaro. Já Ciro Gomes, o terceiro colocado na votação de domingo, com 12%, chamou Haddad de “presidente” ao atender seu telefone, mas viajou para a Europa esta quinta-feira, ficando assim fora da campanha.

Haddad parece estar isolado, enquanto os empresários cercam Bolsonaro. Já a mídia está perplexa. Apenas El País, que tem no Brasil uma edição online muito respeitada, se tem posicionado, editorialmente, contra a extrema-direita. Os jornais o Globo e O Estado de S. Paulo, às vésperas do primeiro turno, atacaram muito mais Haddad do que Bolsonaro. A Folha de S. Paulo atacou os dois.

O que causa estranheza, olhando o Brasil de uma perspectiva europeia e democrática, é, primeiro, que um candidato como o deputado e capitão alcance um tal cabedal de votos, impensável na Europa Ocidental (embora esteja ocorrendo na Hungria, na Polônia e, graças a uma coalizão quase absurda, na Itália que hoje tem ministros fascistas). E segundo, que não se produza de imediato uma aliança dos partidos republicanos, como diriam os franceses, ou democráticos, contra a ameaça de retrocesso social, político e civilizacional que paira sobre os brasileiros.

Fernando Henrique Cardoso estaria disposto a apoiar Haddad, mas desmentiu a informação neste sentido que deu o jornalista Gilberto Dimenstein. Alguns especulam que acabará apoiando. Mas o que sai nos jornais é que todo apoio será negociado. Quando pensamos na união republicana que se realizou em França, nos anos 2002 e 2017, contra o pai e depois a filha Le Pen, sem negociação, sem barganhas, sem ameaças, espontaneamente, contra o inaceitável, fica um travo amargo a denunciar a imaturidade da democracia brasileira.

Haddad enfrenta uma tarefa difícil. Não há precedente, nas seis eleições brasileiras entre 1989 e 2014, realizadas com a exigência de maioria absoluta que antes não existia, de um candidato mais bem posicionado na primeira volta perder para seu competidor. O caso de Mario Soares, que em 1986 conseguiu inverter o resultado da primeira volta que era favorável a seu concorrente Freitas do Amaral, passando de 25,4 para 50,7% dos votos, é raro mundialmente e desconhecido nas presidenciais brasileiras (embora em 1994 tenha acontecido algo dessa ordem na eleição para governador de Minas Gerais).

De que precisará Haddad, para vencer na segunda volta?

Primeiro, desligar-se da imagem de delfim de Lula, de seu indicado. A bênção do ex-presidente o levou a quase 30% dos votos, mas não consegue dar-lhe 50% mais um. Isso já está em andamento. Ele mesmo reduziu as menções a Lula e está substituindo a cor vermelha pelas nacionais, verde e amarelo.

Segundo, tranquilizar os mercados. Haddad tem sugerido que poderia nomear um grande empresário, como Josué Gomes, filho de José Alencar, que foi vice de Lula e lhe deu trânsito no patronato, ou talvez Marcos Lisboa, dirigente do Insper, poderosa faculdade de economia valorizada pelos economistas ortodoxos.

Terceiro, conter a tendência de vários petistas a, como disse alguém, serem carneiros que se apresentam com pele de lobo. Assim, José Dirceu, o ex-poderoso líder do PT que foi condenado por acusações de corrupção e que não fala com Lula há anos, disse que não bastava ao PT o governo,  precisava ter o poder – o que alguns entenderam até como sabotagem a uma candidatura que enfrenta o tsunami antipetista. Ou Gleisi Hofmann, presidente do partido, que atacou Ciro  Gomes durante a campanha dizendo que “nem com reza braba” o PT o apoiaria. Ou muitos anônimos que, no Facebook, veículo altamente politizado no Brasil, se deram aos esportes de atacar os eleitores paulistas, chamando-os de fascistas em bloco, ou mesmo de debochar dos que não votaram no PT. Esse processo de moderação da candidatura está em andamento.

Mas o difícil mesmo é ver que não existe, por parte dos outros partidos, uma reação em defesa das conquistas da civilização. É possível que seus líderes pensem que podem sobreviver tranquilamente a um governo Bolsonaro e até sair ganhando, diante de seu provável fracasso, sem pensarem no custo que o Brasil pagará.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

** Fotografia retirada de SIC Notícias.

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