As mulheres salvarão o Brasil?

Crónica n.º 6
Por Renato Janine Ribeiro*

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A semana começou com um editorial de Le Monde, lamentando “o suicídio de uma nação”, o Brasil. Uma democracia que parecia promissora foi abalada pelos conflitos figadais destes anos e corre o risco de matar-se.

Há países que se destroem: formalmente continuam vivos, mas deixam de ser funcionais. E, se Bolsonaro ganhar, o Brasil pode perder o que lhe resta de democracia, de direitos humanos, de país mesmo.

Mas estes dias surgiram melhores prognósticos. O detestável atentado contra o líder da extrema-direita, que felizmente sobrevive, pouco lhe aumentou as intenções de voto.

Mais que isso, as declarações dele e do general Mourão, seu vice, estão causando uma reação de monta, que pode prenunciar uma união, se não dos partidos, pelo menos diretamente dos eleitores, em torno de quem sobrar para a disputa final com ele, após o turno de 7 de outubro.

Do outro lado, a substituição de Lula por Haddad, como candidato do PT, está causando uma transferência de votos para o ex-ministro da Educação, que não se sabe ainda quão grande será, mas que o torna um candidato plausível para o segundo turno.

É lógico uma campanha eleitoral se afunilar entre direita e esquerda. Contudo, do lado conservador, a extrema-direita – que nada tem a ver com os ideais da criação do PSDB, trinta anos atrás – está esmagando a direita, representada por Geraldo Alckmin, desse partido. As chances de Alckmin hoje são pequenas. Tem poucas semanas de propaganda na TV e rádio para reverter esse quadro, mas a verdade é que seu partido se enfraqueceu muito, ao patrocinar o impeachment de Dilma, que muitos chamam de golpe e não trouxe nenhum dos resultados positivos e imediatos que então se prometeram.

Já pela centro-esquerda, a competição se dá entre o PT – partido sólido, que sobreviveu muito melhor que o PSDB  às agruras do impeachment, mas enfrenta uma oposição, pior, um ódio, por parte da mídia comercial, do patronato e parece que dos militares, que assustadoramente voltam a opinar sobre quem pode ou não pode ser eleito – e Ciro Gomes, leal ministro de Lula, mas que postula faz tempo a presidência.

Aqui temos grandes incógnitas. Haddad receberá votos suficientes de Lula, proibido pelo Judiciário de fazer campanha? E o pior: dado o ódio que têm ao PT os setores mais poderosos da sociedade, será que os não extremistas votarão nele na segunda volta, dia 28 de outubro? E ainda pior: conseguirá governar, ante tanto ódio?
Esta, a razão para muitos quererem Ciro, reputado pela decência e pela firmeza, embora se tema seu humor explosivo.

Ou seja, além das questões de primeiro turno, precisamos pensar já no segundo. Haverá uma união de todos os democratas, inclusive os mais ou menos, contra o fascismo? Ou uma parte da direita votará neste último, preferindo-o ao PT? Porque disso se fala, por aqui.

Mas termino com um bom sinal: tal a revolta das mulheres com o machismo era-das-cavernas do postulante extremista, que uma página nova do Facebook – “Mulheres unidas contra Bolsonaro” – atingiu em dois dias um milhão de membros, aparentemente apenas mulheres.

Será que, 2500 anos depois que Lisístrata e as mulheres salvaram Atenas, será a vez de conhecer o Brasil outro episódio de heroísmo fortemente feminino?

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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