A eleição brasileira e seus cinco favoritos

Crónica n.º 2
Por Renato Janine Ribeiro*

imagem BBC

Neste momento, a apenas 45 dias das eleições presidenciais, o Brasil vive um momento em que pouco se pode prever do futuro. Se eleições têm sempre um fator forte de imprevisibilidade, no caso este fator é fortíssimo: o que parece mais provável é que o vitorioso em outubro seja um dentre cinco candidatos. Um grande elenco, ainda mais porque vão da extrema-direita até a esquerda.

Seguindo esse itinerário, temos em primeiro lugar o extremista Jair Bolsonaro, com a promessa de pôr fim a políticas públicas de apoio aos historicamente discriminados, de mulheres a afrodescendentes e indígenas. Está estabilizado nos 20% e, como não deixarão concorrer Lula, que chegou aos 40%, fica então em primeiro lugar dentre os que estarão nas urnas eletrônicas em 7 de outubro.

Depois, o querido do mercado e da mídia, Geraldo Alckmin, do PSDB, ex-governador de São Paulo. Consegue algo como 1,7% das intenções de voto nos estados do Nordeste, Norte e Centro-Oeste, que reúnem 40% do eleitorado nacional. Nos estados mais favoráveis a ele, está com 8,4%. Terá o maior tempo na propaganda televisiva – perto de metade do total – mas os eleitores teimam em não querer votar nele. Nada mudou aqui, desde a semana passada.

No centro, há Marina Silva, duas vezes candidata, duas vezes a surpresa com 20% dos votos, soma que hoje provavelmente lhe permitiria um lugar no segundo turno e, se concorrer com Bolsonaro, uma possível vitória. Mas ela não tem estrutura partidária e, além disso, fica pouco visível nos intervalos de quatro anos entre uma disputa eleitoral e outra. Além disso, da causa ambiental, sua marca registrada na esteira de seu mestre Chico Mendes, foi migrando para o discurso econômico próximo ao PSDB, o que faz os setores populares verem seu nome com certa desconfiança. Pode ser a (boa) surpresa desta eleição.

Na centro-esquerda, temos Ciro Gomes, ex-governador do Ceará, que concorre com as credenciais de não ter nenhum processo contra si nos importantes cargos que ocupou e de propor medidas econômicas alternativas às do condomínio Temer-Alckmin. Seu problema é também seu trunfo: a disposição a falar o que lhe passa na cabeça. Assim, advertiu a Boeing que, se ela comprar a Embraer no apagar das luzes de um governo ilegítimo, ele anulará o negócio. Disse igualmente que juízes e promotores devem voltar a suas incumbências, o que levou a mídia a acusa-lo de querer tutelar o Poder Judiciário – mas, no fundo, é o que todo presidenciável fará, se eleito for.

Finalmente, a incógnita chamada PT. Se Lula for autorizado a concorrer, o que é muito improvável, ganha. Talvez no primeiro turno. Sua popularidade só cresceu, à medida que os mais pobres – e não só eles – pagavam a conta da recessão e das medidas econômicas conservadoras adotadas por Temer. Espantosamente, se o PT desde 2013 não consegue mais lotar as ruas – nem mesmo contra o impeachment de Dilma ou a prisão de Lula, os dois golpes mais duros que recebeu em sua vida de 37 anos – ele parece o mais capaz de encher as urnas de votos. Talvez porque seus eleitores vivem nos bairros pobres, onde se manifestar politicamente é muito mais perigoso do que nas avenidas centrais das grandes cidades, espaço das classes mais abonadas.

Fernando Haddad e Lula

Na hipótese mais provável de Lula não poder disputar, o nome é Fernando Haddad, que foi meu antecessor (não imediato) como Ministro da Educação. Ocupou o cargo durante oito anos, uma das gestões mais longas desta pasta, e mudou muito – para melhor – a educação brasileira. Jovem para um político (55 anos), a questão que se põe é simplesmente se Lula, preso, conseguirá emplacar no eleitorado menos informado a percepção de que, nesta eleição, “Lula é Haddad”. Por enquanto, todos os analistas que acreditaram que Lula devia sair logo do páreo e ceder o lugar a Haddad erraram. Lula, apesar de não vir de nenhuma oligarquia de políticos, parece ter a política no sangue, tanto que só fez aumentar suas intenções de voto. É provável, se tivesse cedido a vez a Haddad semanas ou meses atrás, transferisse menos votos do que ficando no páreo o mais que possa. Aliás, esta semana, quando foi se evidenciando que o candidato será Haddad, este foi brindado com uma estranha acusação aceita pela Justiça, a de um ato de corrupção que é pouco provável que ele tenha praticado. A coincidência nas datas pode não ser mera coincidência.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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