Falta combinar com os russos

Crónica n.º 1

Por Renato Janine Ribeiro*

renato janine ribeiro

 

 

 

 

 

Nunca vivemos, no Brasil, tamanha indefinição a menos de dois meses das eleições. (No Brasil, que tem um regime presidencialista, funcionando com mandatos fixos para o Executivo e o Legislativo, os pleitos demoram muito tempo a serem organizados. Em Portugal, entre a dissolução da Assembleia e a eleição, o prazo pode ser curto; para nós, não). O pleito pode levar à vitória de Lula, líder nas pesquisas (mas o Judiciário não vai deixar), de seu  suplente Haddad (ainda uma incógnita), ambos de esquerda, ou do temível Bolsonaro (segundo nas pesquisas), de extrema-direita, ou do favorito do capital e da mídia, Alckmin, pela direita (só que suas intenções de voto são medíocres).

Mas o melhor é começarmos esta série falando de algo mais grave, que é a ruína das instituições. O presidencialismo significa que haja três poderes constitucionais “independentes e harmônicos entre si”, o que é um certo exagero, porque eles não são totalmente independentes e nada garante que se mostrem harmônicos.

Ora, o que aconteceu estes anos? Primeiro, o Poder Executivo, que cabe à presidência da República, foi esvaziado, em parte com sua própria colaboração. Dilma Rousseff não teve a extraordinária habilidade política de seu criador, Lula. Governando quando já tinha acabado o boom das commodities, que alimentou as políticas sociais bem desenhadas de Lula, Dilma teve contra si a fortuna, de que fala Maquiavel (em seu caso, o infortúnio) – e lhe faltou a virtù necessária para navegar em mares tempestuosos. Segundo, o Poder Legislativo, no qual ela perdeu a maioria, levando a seu impeachment, também se debilitou por completo. Assim os dois poderes eleitos, os propriamente democráticos, cometeram um haraquiri institucional. Michel Temer, sucessor de Dilma, conseguiu o duvidoso feito de ser intensamente desprezado – a única coisa, para um político, pior do que ser odiado.

Dessa maneira o terceiro poder, o que se preenche por concursos e cooptação, isto é, o que tem critérios aristocráticos e não democráticos de acesso, assumiu a liderança do processo político. Isso é preocupante, até porque o Ministério Público se tornou parceiro dos tribunais, o que é errado: acusador e julgador se associam, por exemplo, na operação Lava Jato (sic: o correto seria Lava a Jato). Essa operação contra a corrupção, que despertou certa esperança no país, focou porém a mira no PT e seus aliados. Lula foi julgado com presteza inédita nos anais judiciários, dando à esquerda bons argumentos para sustentar que sua condenação foi política.

E agora também as carreiras jurídicas, a dos acusadores e a dos juízes, bem como a Polícia Federal, se tornam alvo de críticas. Não há mais poder que receba crédito da sociedade. Tomemos o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que passou anos atacando o PT em falas e decisões: bastou que voltasse a ter uma visão “garantista” dos direitos dos acusados, em especial quanto ao valor básico da presunção de inocência, para a direita o demonizar. Num ambiente polarizado pelo impeachment (como o chamam os que o apoiam) ou golpe (como o chamam os setores progressistas), as instituições do Estado brasileiro somente são respeitadas quando coincidem com as convicções das pessoas. O mesmo que hoje é aplaudido pode ser vaiado amanhã, basta que ele decida de outro modo.

Pesquisas mostram que os cidadãos só confiam mesmo nas  Forças  Armadas e, sobretudo, nas Igrejas. Não espanta então que muitos falem em “intervenção militar constitucional”, uma contradição em termos, mas que é um dos eixos da extrema-direita brasileira.

Neste quadro, o que temos para a eleição? uma extrema-direita atrevida, uma direita acanhada e com poucas intenções de voto e, ainda, uma centro-esquerda por enquanto dividida entre Lula e Ciro Gomes, que foi seu ministro mas não quer mais ser apêndice do PT. Há poucas dúvidas de que Lula, se puder concorrer, terá o maior número de votos na primeira volta e possivelmente ganhará a segunda. Como, porém, tudo tem sido feito para impedi-lo, inclusive medidas à margem da lei, é provável que seu indicado, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, herde uma parte razoável de seus votos. Não se sabe ainda, porém, como será a disputa entre Haddad e Ciro Gomes, ambos concorrendo pela centro-esquerda, que foi banida do Estado, mas conserva popularidade devido ao sucesso das políticas sociais dos governos petistas.

Possivelmente a outra vaga na segunda volta será disputada entre Bolsonaro, pela extrema-direita, e Alckmin, ex-governador de São Paulo, pela direita.  Toda a esperança de Alckmin, da grande mídia e do empresariado que o apoia está nos minutos de televisão que sua coligação terá durante os trinta dias de campanha. Espera desidratar Bolsonaro e firmar-se como candidato. Não será fácil. Ele escolheu como vice uma senadora cujas ideias balançam entre a direita e a extrema-direita, do Sul do País, e parece ter desistido de disputar votos no Nordeste, onde nem ele nem Bolsonaro têm popularidade.

Há uma história que se conta de Garrincha que, junto com Pelé, foi um dos maiores futebolistas brasileiros. Na Copa do Mundo de 1958, a primeira que o Brasil ganhou, o técnico Vicente Feola explicava qual a estratégia a adotar na partida com a então União Soviética, que ele chamava de “Rússia”. Às tantas, Garrincha, homem simples, perguntou ao técnico: “E o senhor, combinou com os russos?” A dificuldade de Alckmin é essa: é o nome ideal para o governo, segundo o Establishment, mas falta combinar com os russos, no caso, o eleitorado. Veremos.

* Renato Janine Ribeiro é  professor de ética e filosofia política na Universidade de S. Paulo (USP) e na Universidade Federal de S. Paulo (UNIFESP). Foi ministro da Educação do Brasil (2015).

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