Dominique Wolton: o Senhor Comunicação

Por Filipa M. Ribeiro

É-me grato escrever esta nota sobre Dominique Wolton, entre outros motivos, porque ele foi o autor de viragem na forma como comecei a olhar para as Ciências da Comunicação quando uma licenciatura em Jornalismo e Comunicação me parecia saber a pouco. Os seus livros  Elogio do grande público: uma teoria crítica da televisão (1990) e Pensar a Comunicação (1997) mostraram-me a Comunicação como ciência e como uma forma de olhar a sociedade sob uma perspectiva intricadamente humanista.


Fundador e director do ISCC-Instituto das Ciências da Comunicação do CNRS-Centro Nacional da Investigação Científica, em França, e fundador da revista internacional “Hermès”, Wolton actualizou as suas preocupações ao nível da Comunicação: dirige-se agora à internet, de forma bastante crítica e numa orientação frequentemente contrária ao meio académico. Desde a sua provocação a esse propósito, sob o título Internet, e depois? – uma teoria crítica dos novos media (1999), o sociólogo francês foi dos primeiros a alertar contra os perigos e abusos nas novas tecnologias de comunicação. Um alerta que cheira à ‘hecceidade’ que Leibniz refere (termo oriundo do latim ‘haecceitas’ que significa aquilo que “faz com que uma coisa seja o que é”). Também Wolton, à sua maneira, dilata o exercício do pensar e do percepcionar a comunicação e o futuro comunicacional que deseja. Porque a comunicação é sempre algo que exprime, que age e padece. “Restam apenas as performances técnicas que se supõe, por uma espécie de capilaridade misteriosa, que serão a fonte de inspiração de uma nova sociedade”, escreve o autor.

Wolton provoca para nos fazer pensar sobre o “depois” da Internet como o agora de uma modernidade ou pós-modernidade, sempre tendo em vista a emancipação do indivíduo num futuro baseado nas utopias do bem, do belo e do verdadeiro. Sobretudo porque, segundo o autor, não pode haver democracia sem identidade. E a verdade é que no panorama actual dominado pelas redes sociais, num contexto de velocidade excessiva, a falta de regulamentação e o descontrolo, se vive também da ilusão de uma massa que vive numa “solidão intercativa”, na famosa expressão de Wolton. “É preciso impedir que a informação e a comunicação, até ontem factores de aproximação, se tornem aceleradores de incompreensão e de ódio justamente por serem [tornarem] visíveis todas as diferenças e toda a alteridade”, adverte. E é aqui que podemos falar na grande utopia de Wolton, e que eu perfilho inteiramente: o horizonte que o sociólogo define para a Comunicação é a emancipação do indivíduo; o que compete a cada um de nós é, então, tornar-se único. Mas o que é digno de referir é que essa exigência é feita em função não de mais tecnologias, não de realidades virtuais (que, para Wolton, é a grande fraqueza da internet), mas de uma profunda sensibilidade do indivíduo. O que fica por imaginar é o horizonte que alteraria de forma substancial a vida do homem se a Comunicação nos fizesse sempre lembrar que aquilo que nos defende do mal é o pensamento porque não pensar tem sido, ao longo da História, a forma que o indivíduo encontrou para se proteger do real.

Outro dos aspectos que, pessoalmente, mais admiro em Dominique Wolton é que, no seu percurso e obra (que inclui mais de 30 livros), sempre se preocupou em analisar a interdisciplinaridade no campo da comunicação e é essa sua tendência que o mantém sempre na vanguarda da reflexão sobre Comunicação, sem deixar de apontar o dedo ao positivismo científico que tanto prejudicou as Ciências Sociais. No fundo, salvo o grosso do paralelismo, Wolton criticou no campo da Comunicação, o que Marcel Duchamp criticou como “arte retiniana”. Crítico e relação à ditadura da beleza, com a ironia que se lhe conhece, Duchamp mostra que os gostos (‘bons’ e ‘maus’) apenas reflectem a materialização de hábitos. Wolton também, na contramão dos tecnófilos e do pessimismo dos tecnófobos, apela à necessidade de utilizar uma força reactiva – contra os gostos e hábitos estabelecidos – pelo facto da Comunicação ser um fenómeno social, pelo peso dado à linguagem e a uma sensibilidade, e por uma noção de beleza assente não naquilo que é agradável e apreciável, mas sim numa força estética que se impõe para o crescimento do indivíduo. A Comunicação surge assim como uma ciência do individual, numa experiência científica e estética de observar para compreender; de explicar melhor para compreender mais nascida da necessidade de ver mais e melhor, depurando sensações e ideias.
Não sabemos para quando esta utopia da comunicação, mas sabemos que Wolton nos ajudará sempre a responder à questão fundamental: quando é comunicação?

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