Feminismo(s), assédio e a geração de 60 em França

Por Ana Rodrigues

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O movimento #MeToo, surgido no ano passado nos EUA, teve a virtualidade de abrir os olhos de muitos quantos escolhiam ignorar que abuso e assédio ocorrem sistémica e transversalmente nas sociedades actuais, e causou ondas de choque que estão ainda longe de abrandar. Ao fazê-lo, quebrando consequentemente com a espécie de omertà vigente, houve quem – aqui e ali – se tivesse deixado contaminar pela comoção e por alguma perturbação, tendo esta contaminação, de certo modo, toldado a verdadeira discussão. Porque, como está bom de ver, um movimento colectivo alavancado na comoção com facilidade desemboca no exagero e no excesso. Acabaram, portanto, por se dar alguns episódios mais discutíveis (como o caso do comediante Aziz Ansari, que se viu no meio de acusações de agressão sexual em virtude de uma experiência sexual pouco gratificante) a suscitarem prontamente acusações de caça às bruxas e de renovação do tradicional puritanismo americano.

Na sequência do #MeToo, nos Estados Unidos e, por arrasto, no mundo ocidental, surgiu o paralelo francês #BalanceTonPorc (ou, numa tradução mais ou menos livre, expõe o teu porco). Aí, a tónica deixou de estar nas vítimas de abuso ou assédio, como acontecia no #MeToo, e passou a estar nos supostos abusadores e assediadores. Assumidamente menos polida, a mais relevante fragilidade que se lhe apontou, no entanto, prendeu-se com o facto de um ataque feroz aos homens poder alienar a sua simpatia pela causa anti-assédio, anulando os esforços que têm sido feitos nos últimos tempos de envolver os homens nas causas feministas e igualitárias.

Em reacção a estes dois fenómenos – por um lado, o ‘puritanismo’ do #MeToo, por outro, o ‘ataque aos homens’ do #BalanceTonPorc – um grupo de 100 mulheres francesas, das quais o nome mais reconhecível é o de Catherine Deneuve e cuja redactora é a polémica escritora e crítica de arte Catherine Millet, publicou no Le Monde uma carta a condenar em toda a linha aquilo que consideraram ser uma ameaça à liberdade sexual e um retrocesso moralista que arrisca voltar a tornar o corpo e o desejo feminino inacessível e proibido.

As réplicas candentes à carta das 100 signatárias mostraram com clareza a fractura existente no seio do feminismo francês. A geração de feministas da década de 60, em França, é uma geração que lutou para anular a ideia de culpa e de pecado associada à sexualidade feminina. Mesmo dentro dos próprios movimentos estudantis do Maio de 68, a luta pela igualdade desta geração de feministas não era preponderante, o que ainda assim não impediu a contestação do puritanismo vigente e da sociedade patriarcal estabelecida. Não por acaso, para além de Deneuve e de Millet, cuja obra de referência é um livro autobiográfico de memórias sexuais, assinaram a carta outros nomes dessa geração de luta pela liberdade sexual, como Catherine Robbe-Grillet, actriz e autora sado-masoquista, ou Brigitte Lahaie, que na década de 70 esteve ligada ao mundo da pornografia francesa. A contrastar, a ministra francesa para a igualdade, Marlène Schiappa (como que a representar uma outra geração do feminismo francês, com os seus 35 anos – a mesma geração, afinal, do #BalanceTonPorc) acusou duramente a carta – que considerou ofensiva – de trivializar o assédio e a violência contra as mulheres, no que foi acompanhada por outras feministas, como a política e activista Caroline de Haas.

Mas há também quem evoque outros argumentos para ajudar a compreender a razão para este movimento de reacção ao #MeToo ter vindo exactamente de França. Por exemplo, a noção de galanteria francesa. É evidente, porém, que a sedução – mesmo que desigualitária, como efectivamente é – inerente à ideia de galanteria francesa não se confunde com assédio e abuso. E essa distinção parece ser um pormenor na carta das feministas da geração de 60.

Uma última ideia pode ajudar a compreender – ou pelo menos enquadrar – a carta e a polémica que ela trouxe consigo. Na verdade, as signatárias e os seus subsequentes apoiantes vieram tomar uma posição clara quanto a uma das questões que tem feito perigar os avanços da luta pela igualdade: a perniciosa discussão em torno do politicamente correcto, visto como tudo aquilo que obriga a sociedade a respeitar adquiridos civilizacionais (ainda que meramente discursivos), comprimindo portanto a liberdade absoluta de se dizer (e fazer) o que se queira.

Analisadas as coisas a frio, de longe e já no rescaldo da polémica, há algumas considerações que se podem tecer. Não é que a preocupação com o excesso de puritanismo e uma possível caça às bruxas não seja legítima, como o caso de Ansari bem demonstra, mas a carta francesa, ao aliar esta preocupação aos excessos do politicamente correcto, aligeirando ao mesmo tempo o flagelo que constitui o assédio (laboral, social, de rua) e esquecendo a cultura patriarcal e desigualitária em que (ainda) vivemos, acaba por fazer uma apologia da ordem simbólica de género em que se funda a tal ideia da galanteria francesa: os homens que importunam, que conquistam, que seduzem, vs. as mulheres que são importunadas, conquistadas, seduzidas. O homem-sujeito vs. a mulher-objecto. E isto, para a igualdade por que se luta no século XXI, que transcende em absoluto a liberdade sexual, não é admissível.

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