Maio de 68, 50 anos depois: onde para a crítica?

Por Gonçalo Marcelo

Maio de 68 não foi um só fenómeno, mas vários. Não pode ser interpretado como se se tivesse tratado de um evento exclusivamente parisiense, estudantil ou operário, embora Paris tenha sido o seu epicentro e nele confluíssem movimentos e reivindicações sociais, políticas e culturais diversas.

Porém, se algo havia de comum àqueles que saíram à rua, festejaram e se manifestaram, isso era, sem dúvida, a afirmação de uma atitude crítica. Até certo ponto, Maio de 68 foi o expoente máximo, posteriormente tornado simbólico, da atitude de toda uma geração que rejeitava o controlo social, a autoridade e uma moral vista como opressiva e arcaica. Não se pode compreender Maio de 68 a não ser no contexto dos movimentos estudantis dos anos 60, da influência do movimento hippie, do pacifismo, e da luta pelos direitos civis e de libertação sexual. Mas, na verdade, Maio foi muito mais. Porque o que Maio representa é a erupção violenta, (simbolicamente violenta) da crítica numa sociedade que, poucos meses antes, poderia parecer mais ou menos mergulhada na anomia.

Habermas por vezes fala de sociedades cujas esferas públicas não se pode dizer que não existam mas, no entanto, se encontram estado de “latência”. Em sociedades tradicionais, patriarcais e baseadas num conjunto de valores relativamente estável e não questionado, ainda por cima com um forte crescimento económico no pós-guerra, num contexto em que, para resumir exagerando, se poderia dizer que o “capitalismo tinha comprado as massas”… é certo que, tirando os debates intelectuais ou partidários mais especializados, talvez seja normal reconhecer a ausência de uma contestação social generalizada. Chamemos a este cenário o pré-Maio de 68.

Ora, o que Maio representou foi a crítica total e sem concessões de um determinado modo de vida e de uma certa forma de organização social que eram vistas como sendo alienantes e reificantes. O sucesso do pensamento de Marcuse por entre os estudantes é disso prova. A crítica do consumismo, da ideologia tecno-científica e do empobrecimento da experiência que Marcuse denunciava no “homem unidimensional” tinham a sua contrapartida na busca de emancipação e, até certo ponto, na possibilidade da autogestão, como sublinhou Castoriadis.

Em Maio de 68 lutava-se por uma vida mais livre, e pela possibilidade de uma expressão mais autêntica; nele, como bem viram Luc Boltanski e Ève Chiapello, cruzaram-se crítica social e crítica “estética”. A afirmação da imaginação e da utopia, a demanda pelo impossível como atitude alegadamente realista, apenas serviam para mostrar que a realidade social não é imutável. No fundo, Maio de 68 representa uma espécie de refutação da tese da T.I.N.A. avant la lettre.

Por tudo isso, e independentemente da sua eficácia relativamente parca do ponto de vista político, todos estes movimentos tiveram uma posteridade e uma marca cultural muito específicas. Contudo, nada está ao abrigo de ser apropriado ou cair no esquecimento. Boltanski e Chiapello mostram, por exemplo, de que forma o ideal da autonomia defendido em Maio de 68 acabou por ser sub-repticiamente transformado na ideologia da flexibilidade tão habilmente utilizada pelo “novo espírito do capitalismo” para levar os trabalhadores a aceitar e conviver mais ou menos pacificamente com situações de precariedade.

Sem algum nível de contestação e exercício de crítica, uma sociedade perde uma dimensão importante da sua vitalidade e da sua mobilização cidadã. Maio de 68 não foi, de todo, um movimento partidário, nem a obra de uma “vanguarda”. Na última década, no contexto da reação à crise, movimentos como o Occupy Wall Street, Indignados ou, em Portugal, o Que se lixe a troika! têm sido os herdeiros desse espírito contestatário e de afirmação da possibilidade de um modo de vida radicalmente diferente – aos quais obviamente se junta, como Álvaro Vasconcelos várias vezes sublinha, a vaga mais recente do movimento feminista e a luta pela igualdade, na qual infelizmente ainda resta tanto por conquistar.

Estes movimentos mostram que a força do movimento crítico ainda existe, embora a reação conservadora tente muitas vezes atrofiá-lo, no contexto do fascínio cada vez maior por um alegado “retorno à ordem”, consubstanciado pela ascensão de um pensamento “iliberal” de matriz tecnocrática ou populista de direita. Onde para, portanto, a crítica, no sentido de, onde se encontra ela, hoje? Nos atores sociais, como sempre, em relação mais ou menos estreita (umas vezes mais evidente, outras menos) com o pensamento que se pretende progressista.

Recordar Maio de 68 é invocar o futuro do passado, e perceber que, se ontem, outro mundo era possível, certamente também o será amanhã.

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