Lula: o passado do futuro

A prisão de Lula tornou ainda mais evidentes os paradoxos da crise política brasileira, a grave polarização da sociedade e o enorme descontentamento da sua classe média com os partidos políticos.

As políticas sociais de Lula criaram uma vasta nova classe média que, na oposição ao decadente sistema politico, representa, apesar da sua tentação populista, a melhor esperança para o futuro da democracia brasileira.

 

As reações, poucas, de júbilo à prisão de Lula não demonstram alegria pelo fim da impunidade dos poderosos, são a consagração do ódio a tudo o que representa, como homem e político. Do outro lado, o desalento de alguns não é fruto de uma ideia de justiça seletiva mas sim da constatação de que a justiça ainda não é igual para todos.

Não tenho a certeza de que a atual condenação de Lula seja justa, mas tenho a convicção de que Dilma foi vitima de um impeachment político, orquestrado por políticos corruptos que procuram salvar a própria pele.

Sei que muitos dos que bateram panelas pelo impeachment da Dilma e celebram a prisão de Lula com champanhe e caviar, fazem parte da elite mais egoísta do mundo, e só esperam que este desfecho marque o fim da influência política das correntes progressistas com consciência social no Brasil.

A eleição de Lula, em 2002, marcou a consolidação da democracia e a esperança de justiça social. O Brasil era um dos países mais injustos do mundo, onde os descendentes dos antigos esclavagistas continuavam a arrecadar fortunas colossais e a impor uma descriminação social revoltante. O Brasil era a Belíndia, onde 20% da população vivia como na Bélgica e 60% como nas regiões mais pobres da India.

Quando Lula saiu da presidência em 2010, com 87% de aprovação, não tinha defraudado os que nele tinham votado. Com enorme bom senso politico, transformou o PT de partido de protesto em partido de governo, combinando rigor macroeconómico com programas sociais inovadores, como o Bolsa Família, parte do plano Brasil Sem Miséria, rendimento básico para os pobres que colocarem os filhos na escola e os vacinarem, de que hoje beneficia cerca de um quarto da população. Durante as presidências Lula, cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema e formaram uma nova classe média, ampliando os progressos já conseguidos pelas presidências de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, que com o plano real controlaram a inflação. O Brasil foi o único dos BRICS onde a desigualdade diminuiu.
Lula tomou posse porque a presidência de Fernando Henrique Cardoso criou as condições de estabilidade democrática. Aliás, a passagem da presidência foi exemplar, com Fernando Henrique a colaborar com Lula para vencer as resistências de Bush à eleição de um homem “com a estrela vermelha do PT na lapela“. Com Lula e Dilma, o Brasil consolidou a sua influência num mundo policêntrico, afirmando-se como uma potência emergente.
A convicção de muitos brasileiros que votaram em Dilma Roussef em 2014 e que se preparavam para votar em Lula é de que o seu direito de voto está a ser defraudado. Por isso os simpatizantes do PT falam de um golpe em duas etapas: primeiro o impeachment, depois a prisão do líder das sondagens. Mas não é preciso compartilhar a teoria do golpe, pouco popular fora do PT, para constatar que a democracia brasileira está em crise, com um governo que chegou ao poder ilegitimamente, com o Presidente Temer e numerosos eleitos acusados de múltiplos crimes de corrupção, protegidos pelos seus foros privilegiados.
O Brasil não escapa à tendência global para a regressão democrática. Paradoxal é que tal suceda num momento em que a impunidade dos altos dirigentes políticos parece estar a ser posta em causa, da Coreia do Sul ao Brasil, passando pela França e a África do Sul.

As fragilidades da democracia brasileira são conhecidas: um sistema partidário fragmentado, sem partidos fortes, regra geral sem identidade política, com governos frágeis, sustentados por coligações numerosas (nove partidos no governo Dilma), o que facilita a corrupção – a corrupção da política, com o financiamento ilegal das campanhas pelas empresas, e a corrupção dos políticos, que enriquecem de forma despudorada.

A critica que se deve fazer a Lula, e ao PT, é nada ter feito para alterar esta situação: não fez a reforma política, eleito com uma agenda ética não a cumpriu e permitiu a corrupção política (desde logo com o mensalão). O discurso da ética, como lembra Renato Janine Ribeiro, foi substituído pelo do consumo.

A corrupção geral dos partidos enfraqueceu todo o sistema, incluindo o PT. Lula, no entanto, pelo seu passado, continuava a ser a melhor alternativa à eleição de um candidato da extrema-direita, hoje representada por Bolsonaro. Será que sem Lula para lhe barrar o caminho Bolsonaro poderá ganhar as eleições? Há muitos que não o creem, que acham que não é possível que o homem que dedicou o seu voto pelo impeachment de Dilma ao agente da ditadura militar que a tinha torturado possa ser eleito. Como a eleição de Trump mostrou, porém, os descontentes com o sistema são capazes de nos surpreender.

O paradoxo brasileiro é que, como em outros países, a nova classe média, empoderada pela educação e com voz nas redes sociais, não aceita a corrupção, mas pode eleger candidatos populistas iliberais na sua revolta.
A revolta contra a corrupção empodera juízes, que se veem, em seu nome, no papel de últimos garantes das instituições e podem, se assumirem as responsabilidades dos políticos, enfraquecer a democracia.
É na juventude da classe média que reside a melhor esperança do futuro do Brasil, como se viu nas manifestações de junho de 2013, por melhores serviços públicos, ou em 2015, contra a impunidade dos poderosos. A sociedade civil brasileira é hoje influente e conectada, mas não se revê no PT nem nos outros partidos tradicionais. A reação quase unânime ao assassinato político de Marielle Franco mostrou que existe capacidade para superar a guerra civil fria que impede os consensos necessários.
Um candidato que surja no campo democrático, apoiado na sociedade civil, assumindo a bandeira da reforma do sistema politico, e que não deixe a bandeira ética a candidatos populistas, poderá ganhar as eleições e preservar a herança de Lula e Fernando Henrique Cardoso.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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