As democracias europeias e a crise humanitária na Síria – Mais uma pergunta: Que POSSIBILIDADE(S) de proteger?

 

Por Maria Carlos Oliveira

·          O «islão-regime» nasceu enquanto poder político e económico. E sem espírito da tribo, não teria conhecido tamanho desenvolvimento. (…) A bem dizer, Sqïfa nunca deixou de assombrar o espaço árabe. Ela habita-o. Permanecemos sepultados em Sqïfa. Há quinze séculos que a guerra entre árabes não para. O drama permanece atual. Não saímos da Idade Média. [28]

·          Na Europa, a sociedade envelheceu. Está cansada, e até mesmo esgotada pelos problemas económicos; toda a gente anda à procura de trabalho. As pessoas têm medo do futuro. Na França, quase quatro milhões de indivíduos estão no desemprego. Angustiadas, as pessoas tentam proteger-se em vez de se abrirem ao futuro. Por conseguinte, é preciso algo de novo para que a sociedade europeia mude e apresente uma visão e um projeto culturais. [129-30]

·          O que se passa nos países árabes desde 2011 é uma espécie de regresso à pré-humanidade, à selvajaria. Assassina-se um homem para roubar ou porque ele pensa de maneira diferente. Assassina-se os que não pertencem ao sunismo ou que pensam de maneira diferente. Isto testemunha um ódio ao humano. Estas práticas e o silêncio dos muçulmanos que rodeia estes factos mostrem, como já referi, que os muçulmanos acreditam e pensam que o islão é a única religião verdadeira, a religião perfeita, aquela que Deus escolheu para os Seus fiéis. Como se fosse possível viver sem o islão. Como é possível pensar que o mundo sem o islão seria desprovido de sentido? [173] [1]

Adonis

                A crise humanitária que se vive na Síria, pela sua dimensão e sofrimento profundo de um povo em agonia, exige que a comunidade internacional, e não apenas as democracias europeias, assuma a responsabilidade de proteção como imperativo. Creio que ninguém, com o mínimo de bom senso e sentido de humanidade, questionará este dever. Mas um dever é apenas isso mesmo, um dever, faltam agora ações que permitam tornar menos insuportável o quotidiano das vítimas de um conflito sem fim à vista…

Apesar de um passado europeu profundamente marcado pelo etnocentrismo e das atuais contradições, perigos, angústias e também, convém lembrar, alguns ténues sinais de esperança, a Europa ainda continua a ser olhada como uma reserva moral. Mas, perante a complexidade do conflito sírio, com múltiplos atores, níveis de conflitualidade e interesses, pergunto-me como poderá a Europa exercer, com maior eficácia, o seu dever de proteger.

Outra questão que importa colocar, é a de saber se a Europa, neste momento, pode exercer o dever de proteger de uma forma mais eficaz. Tenho sérias dúvidas!

A globalização, resultante da revolução científica e tecnológica, tem imprimido um ritmo vertiginoso à mudança, que vai arrasando partidos, políticos, sonhos e, sobretudo, empregos. Vão desaparecendo, em primeiro lugar, os que exigem mão-de-obra não qualificada, mas também já se vai perspetivando o desaparecimento de profissões que hoje exigem qualificação e conferem estatuto social. Obviamente que o futuro poderá ser outro, que muitos dos empregos do futuro estão por inventar. Mas ainda assim, o futuro parece ser muito pouco inclusivo em matéria de empregos e essa perceção parece existir, o que torna mais difícil a esta Europa, envelhecida e mais uma vez mergulhada em medos e nacionalismos atávicos, consensualizar um projeto de futuro no quadro da democracia liberal.

Outra questão relevante e pouco abordada, é a fratura existente entre um ocidente secular e um mundo islâmico dominado pela Verdade totalitária. Muito do que se passa no mundo árabe resulta de fatores internacionais, mas a questão essencial parece-me vir de dentro, parece estar profundamente ligada à problemática da sua Verdade, que potencia um nível de conflitualidade permanente ao longo dos séculos. Como será possível uma comunicação efetiva e promover uma verdadeira inclusão no respeito pela diversidade tão absoluta nas suas crenças?

Não é possível escamotear as feridas que na Europa que vão abrindo e que, ingenuamente, julgávamos curadas pelo banho de sangue de duas guerras mundiais. Elas estão aí e o grau de infeção que poderão atingir é imprevisível. Por outro lado, como lembra Adonis, “A situação do mundo árabe é catastrófica se pensarmos no povo e não nas riquezas de que ele é pródigo. É claro que os povos se extinguem, mas de uma maneira nobre. Ora, nós estamos a morrer de uma maneira humilhante. O islão está reduzido a uma espécie de celeiro onde os muçulmanos se abastecem. É necessário repensar tudo isso”[2].

É verdade que as democracias europeias têm, enquanto membros da comunidade internacional, o dever de proteger. Ma nesta equação, a realidade do mundo árabe tem um papel fundamental, que constitui, simultaneamente, um desafio político e, sobretudo, cultural, que Adonis traduz com grande clareza: “aqueles que leram os filósofos ocidentais e que se familiarizaram com o pensamento ocidental já não fazem parte do corpo cultural árabe. Portanto, estão perdidos entre a cultura europeia e a sua pertença a um país onde não são conhecidos nem reconhecidos”[3].

Quantos mortos terão ainda de ser contados até que se definam vencedores e vencidos na disputa pelos ricos despojos e pelo domínio geoestratégico?

Estou convencida que o diálogo só poderá surgir quando os jogos de guerra forem superados pela clareza dicotómica entre vencedores e vencidos. Até lá, o que poderá fazer a Europa? Precisa de fazer, mas não acredito que possa ser muito, prisioneira que está dos seus problemas sem solução à vista!

 

 

 

[1] Adonis, Violência e Islão: Entrevistas com Houria Abdelouahed, Porto: Porto Editora, 2016.

[2] Idem, ibidem, p. 177.

[3] Idem, ibidem, p. 37.

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