O correto, o incorreto OU o vazio da política?

Por Maria Carlos Oliveira

politicamente-correto

Como é que os seres humanos vieram a ser, ao mesmo tempo, sofredores, mendicantes, celebrantes do prazer, filantropos, artistas e cientistas, santos e criminosos, senhores benevolentes da Terra e monstros empenhados na sua destruição?

António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas

 

Politicamente correto e politicamente incorreto são expressões a que me tenho acomodado para avaliar e arrumar a informação nestes tempos em que a política, no sentido aristotélico de procura do bem comum, tem sido esmagada pela razão instrumental, inerente ao neoliberalismo, que tem tomado conta da globalização. A lógica do interesse individual, que carateriza o capitalismo, tem prevalecido sobre a racionalidade que deveria governar a gestão da coisa pública, em que todos é mais do que a soma dos indivíduos que fazem parte de uma determinada comunidade.

A vitória de Trump, que é luz para Duterte, fez-nos compreender, de forma dolorosa, a distração. Mesmo os mais atentos e empenhados compreenderam que algo de essencial lhes tinha escapado.

Como foi possível?

A primeira causa talvez se prenda com os nossos instrumentos de análise. Como afirma A. Damásio, que não é um reducionista, “Frequentemente, as reflexões sobre o processo de construir culturas prendem-se com duas versões em aparente conflito: uma em que o comportamento humano resulta de fenómenos culturais autónomos, e outra em que o comportamento humano resulta da seleção natural e dos seus resultados transmitidos por genes. Mas não é necessário favorecer uma destas versões e ignorar a outra. O comportamento humano só pode ser explicado satisfatoriamente usando ambas as versões, na ordem e nas proporções adequadas para cada situação específica.”[1]  Ivan Krastev parece intuir este conflito ao defender que “O populismo das maiorias ameaçadas é um tipo de populismo para o qual a história nos preparou mal. São mais os psicólogos do que os sociólogos que podem ajudar-nos a percebê-lo” e acrescenta mais adiante “Há uma década, o filósofo húngaro e ex-dissidente Gaspár Miklos Tamás afirmou que o Iluminismo, no qual a ideia de União Europeia está intelectualmente fundada, exige a cidadania universal. Mas a cidadania universal requer que duas coisas aconteçam: ou os países pobres e disfuncionais têm de se tornar lugares onde vale a pena viver, ou a Europa tem de abrir as portas a toda a gente. Nenhuma delas vai acontecer em breve, se é que acontecerá alguma vez. Hoje o mundo é povoado por muitos países falhados de que ninguém quer ser cidadão e a Europa também não tem a capacidade nem os seus cidadãos/eleitores concordarão alguma vez em manter as suas fronteiras abertas”[2].

Assim, qualquer análise, que pretenda alguma objetividade, deverá tomar em consideração as especificidades humanas, o que nos confrontará com a inevitabilidade de a análise oscilar, por vezes ao mesmo tempo, entre um discurso politicamente correto e um discurso politicamente incorreto. Pode parecer paradoxal, mas estou inteiramente de acordo com António Damásio quando afirma não ter “quaisquer dúvidas de que a capacidade intelectual, a sociabilidade a linguagem desempenharam papéis fundamentais no processo [de construção de culturas], mas julgo que terá sido preciso algo mais para dar início à saga das culturas humanas ”[3], ou seja, os sentimentos e sobre estes ainda sabemos muito pouco…

A segunda causa parece prender-se com a dificuldade que temos em abandonar, na realidade quotidiana, isto é, no relacionamento com os outros, pressupostos etnocêntricos. Confrontei-me com estra situação quando vi o vídeo de Deeyah Khan [TEDx Talks] O que não sabemos das crianças muçulmanas da Europa e porque é que nos devemos preocupar? – https://www.youtube.com/watch?v=0_W0HFy9Et4 .

O que me chocou na história de Deeyah Khan foi o padrão de silêncio, ao longo dos anos e em diferentes lugares livres e democráticos, do cidadão comum que, muito provavelmente, rejeita, intelectualmente, o racismo e a xenofobia. O que me chocou foi a ineficácia das instituições de países desenvolvidos, democráticos e livres para proteger os cidadãos. O que me doeu foi perceber como a vida do outro nos pode ser tão estranha em consequência da nossa indiferença perante os dramas das vidas comuns, apesar de tanta cultura, de tanta viagem pelo mundo…

Só então percebi quão falaciosa era a dicotomia politicamente correto/politicamente incorreto a que frequentemente recorro. Percebi também, ao explorar o vídeo de Deeyah Khan, numa aula sobre a ação humana, como o seu sentido profundo escapava aos meus alunos, apesar de todos manifestarem o seu repúdio pelo racismo e pela xenofobia, era como que uma espécie de “cegueira étnica”. Nenhum se perguntou como foi possível, porque é que ninguém fez nada, como tinha sido possível acontecer na Noruega, um dos países mais democráticos… NINGUÉM, apesar de, todos eles, serem adolescentes normais e simpáticos!

Percebi então a importância de abandonar o politicamente corretro/incorreto. Afinal a adjetivação tinha-se mostrado ora demasiado lata, ora demasiado estreita, ora empobrecedora, ora perigosamente falaciosa.

Compreendi, quando li mais tarde, o alcance das palavras de Slavoj Žižek, assim como a pertinente reflexão sobre a ação, legítima e desejável, que tem sido desenvolvida na luta pelos direitos das minorias:

 “Os críticos liberais do novo populismo não veem que a fúria popular não é um sinal de primitivismo de pessoas comuns, mas um sinal de fraqueza da própria ideologia hegemónica liberal que não consegue «criar consenso», por isso, é necessário o recurso a uma forma mais «primitiva» de funcionamento da ideologia. Os defensores esquerdistas do populismo não percebem que o «populismo» não é uma forma neutra a que pode ser dada uma volta para direita fascista ou para a esquerda. Já ao nível da sua forma, o populismo constrói o inimigo como um intruso exterior e portanto nega os antagonismos imanentes. Por isso, embora, evidentemente, seja claro que o populismo não corresponde, necessariamente, à desintegração do discurso público caindo na vulgaridade, existe porém, nitidamente como que um pendor natural do populismo para resvalar para a simplificação vulgar e para a agressividade pessoalizada. (…)

É absolutamente essencial ter em conta uma caraterística partilhada pelo respeito politicamente correto pelas identidades particulares e o ódio anti-imigrante pelos outros: o medo de que uma identidade específica seja devorada pela universalidade anónima de uma Nova Ordem Mundial. Quando os conservadores nacionalistas afirmam que apenas querem para o seu país (Alemães, Franceses, Britânicos…) o mesmo direito à identidade que as minorias sexuais e étnicas querem para si próprias, esta exigência absolutamente hipócrita levanta uma questão válida, especialmente a necessidade de ir além de TODAS as formas de política de identidade, de direita ou de esquerda. O que deveríamos rejeitar é, já a um nível mais básico, a perspetiva de múltiplas lutas pela emancipação (étnica, sexual, religiosa, legal…) que deveriam então unir-se gradualmente por meio da construção de uma sempre frágil «cadeia de equivalências» entre elas (utilizando a expressão de Ernesto Laclau). A universalidade não é algo que deveria emergir através de um logo e paciente processo, é algo que está sempre e já aqui como ponto de partida de todo o processo autêntico de emancipação, como a sua própria motivação.”[4]

Ainda sem bússola, a praxis de esquerda continua a não encontrar respostas para combater, de forma orgânica, as desigualdades e a exclusão que afetam um número cada vez maior de cidadãos europeus. Ao mesmo tempo que as respostas vão tardando, o quotidiano vai sendo pontuado por manifestações que evidenciam os tempos disruptivos que vivemos. Estou a pensar, por exemplo na manifestação realizada na Polónia, no dia da Independência, e que, conforme noticiava o Sol online (13.11.2017), foi convocada pelo grupo “Campo Nacional Radical, que se afirma como herdeiro do movimento fascista polaco da década de 30 e que colaborou com o nazismo depois da invasão de 1939, e pela organização Todos os Jovens Polacos”. A mesma notícia citava um jovem polaco, de 27 anos, que participou na marcha: “Claro que existem nacionalistas e fascistas nesta marcha, mas estou confortável com isso. Apenas estou feliz por estar aqui.” A resposta deste jovem leva-me novamente a Slavoj Žižek, “O medo leva-nos a anular o objeto externo, enquanto a forma de confrontarmos a ansiedade é transformando-nos. (…) Quando uma ordem governa, os horrores e as monstruosidades são normalizados, mas no processo de passagem, quando a velha ordem está a morrer e a nova ainda não existe, os horrores tornam-se visíveis como tal, são des-normalizados e, nesses momentos de esperança, tudo é possível”[5].

Quero acreditar que o psicólogo cognitivo Steven Pinker tem razão quando defende que o mundo não se está a desmoronar[6], apesar dos desafios políticos e ambientais, e por isso termino com as palavras, mais uma vez, de Slavoj Žižek:

 “A grande lição do capitalismo global é que os países, sozinhos, não conseguem realizar essa tarefa, apenas uma nova política internacional pode, talvez refrear o capital global. Um velho anticomunista de esquerda disse-me um dia que a única coisa boa de Estaline foi ter assustado mesmo as grandes potências ocidentais e o mesmo poderia dizer-se de Trump. O que ele teve de bom foi ter assustado realmente os liberais. As potências ocidentais aprenderam a lição e numa atitude de autocrítica concentraram-se nas suas falhas e desenvolveram o Estado-Providência, será que os nossos liberais de esquerda conseguirão fazer algo de semelhante?”[7].

[1] António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, Lisboa: Temas e Debates, 2017, p. 18.

[2] Ivan Krastev, in O Grande Retrocesso, Lisboa, Objetiva, 2017,p. 126.

[3] António Damásio, ibidem, p. 14.

[4] Slavoj Žižek, in  O Grande Retrocesso, Lisboa, Objetiva, 2017,pp. 282-84.

[5] Idem, ibidem, p. 288.

[6] Público, 11.11.2017

[7] Ibidem, p. 290.

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