Macron a Europa aberta

Três gestos marcaram os primeiros passos internacionais de Macron: a visita a Angela Merkel, a receção de António Guterres, o primeiro líder internacional que recebeu em Paris, e a visita ao Mali. A eles se seguiram outros como a cimeira da Nato e a reunião do G7. Em todos o novo Presidente francês reafirmou a sua visão de uma Europa Unida capaz de falar com uma só voz nas grandes questões internacionais . as da segurança, as do aquecimento global e do comércio internacional . Em todos se colocou como o defensor de uma alternativa multilateral, aberta e progressista ao nacionalismo bélico, dos muros e da xenofobia de Trump e seus admiradores europeus. Pode-se , mesmo, dizer que Macron dá continuidade à visão do Mundo que Obama defendeu e levou à abertura a Cuba, ao acordo com o Irão e ao acordo de Paris sobre o clima, que Trump procura torpedear. Com este artigo procuro contribuir para o necessário debate sobre o futuro da União Europeia.


O debate sobre a vitória de Emmanuel Macron tem-se centrado na política económica e nos seus impactos sociais, em claro detrimento da defesa dos valores fundamentais em questões como o Islão e os refugiados e ainda menos sobre a sua política internacional. Como se a questão dos valores em que assentam as sociedades abertas fosse secundária, como se tivéssemos voltado ao velho debate democracia social contra democracia política. O novo presidente francês tem exposto as suas convicções numa Europa aberta – aberta internamente pela defesa dos valores democráticos e ao mesmo tempo aberta ao mundo.

O encontro de Macron com Merkel confirma a centralidade da Alemanha no projeto europeu e a convicção de que o sucesso da sua visão europeia depende da evolução da política alemã. Aqui, aparentemente nada de novo. Hollande tinha tentado voar para Berlim no próprio dia da tomada de posse, mas acabou por não conseguir devido a uma avaria no seu avião.
Muitas coisas se alteraram desde 2012, o que poderá facilitar a tarefa ao novo presidente. O nacionalismo económico alemão, as políticas de austeridade e sobretudo a manifesta falta de solidariedade com as regiões mais desfavorecidas da União, colocaram o projeto europeu à beira da desintegração – uma inevitabilidade caso Le Pen tivesse vencido. Macron foi a Berlim com um enorme capital político, pois derrotou a extrema-direita com um discurso federalista europeu . O apoio popular com que foi recebido em Berlim só reforça o peso dos seus argumentos em favor de uma União Europeia mais democrática e solidária. É verdade que não propõe a mutualização da dívida passada, mas propõe a da dívida futura, bem como a criação de um orçamento da zona euro para acorrer às necessidades das regiões mais desfavorecidas.
Para mobilizar os cidadãos europeus para o seu projeto de “destino comum”, Macron necessita de alargar o número de atores sentados à volta da mesa com a Alemanha – daí a importância das relações com a Europa do Sul.
Só em setembro, depois das eleições alemãs, saberemos que resposta virá de Berlim, mas sabemos desde já que o fracasso de Macron será o suicídio da União Europeia. A Alemanha deveria estar bem consciente desta realidade, embora as declarações de Schäuble, sobre a necessidade da França arrumar a casa primeiro, mostrem que nem todos o estão.
Na receção ao secretário-geral das Nações Unidas, no segundo dia da sua presidência, Macron reafirmou o lugar central que a França quer continuar a desempenhar “ na defesa dos direitos humanos e no apoio às Nações Unidas” questões essenciais quando Trump ameaça o futuro do multilateralismo e organiza uma frente de lideres reacionários, de Riade ao ditador Sissi do Egito ou ao presidente fascista das Filipinas Deturpe.
Macron demarcou-se, durante a campanha, das visões da política internacional defendidas pelos nacionalistas franceses de várias tendências, nomeadamente da complacência ou admiração que nutrem por Putin, que, inclusivamente, apoiou financeiramente e recebeu a candidata da extrema-direita.
Se há uma área política em que faz todo o sentido que Macron assuma boa parte da herança de Hollande é na política internacional. Durante a campanha, Macron foi claro na defesa de uma política internacional multilateral, empenhando-se, por exemplo, no acordo com o Irão. A França de Hollande teve um sucesso indiscutível com a organização da COP21, em Paris, marcado por um acordo para travar o aquecimento global. Macron considera prioritária a defesa do acordo, nomeadamente através de uma aliança com a China para contrariar as intenções de Trump de o torpedear.
A França de Hollande demonstrou também que é o país da União com vontade e capacidade para,se necessário, usar a força militar – como o fez no Mali, para apoiar as forças armadas governamentais, para garantir a unidade do país ameaçado por grupos rebeldes jihadistas e tuaregues. Na sua visita ao Mali Macron afirmou o empenho da França na segurança do país, na cooperação com os restantes países do Sahel. Terá agora de conseguir que a missão ganhe uma mais forte dimensão europeia e que a Alemanha reforce a sua presença de forma a enfrentar os problemas políticos e sociais da região, nomeadamente dos tuaregues.
Perante o unilateralismo de Trump, os europeus terão que assumir responsabilidades reforçadas na segurança regional. Macron defendeu na campanha eleitoral uma nova articulação com a Alemanha para relançar a política de segurança e defesa europeia, com uma divisão de tarefas: um maior contributo militar francês, um maior contributo logístico e de apoio ao desenvolvimento da Alemanha, o que é desejável mas insuficiente nos cenários militares de alta intensidade, onde o contributo do Reino Unido continua a ser necessário.
A crítica do que Macron designou por deriva neoconservadora francesa dos últimos dez anos, nomeadamente com a intervenção militar de Sarkozy na Líbia, mostra também que o novo presidente procurará dar prioridade às soluções diplomáticas dos conflitos, na tradição francesa de De Gaule a Chirac.
Mergulhados nos seus problemas internos, divididos em questões essenciais como os direitos dos refugiados, é altura dos Estados da União assumirem que num mundo globalizado a distinção entre o interno e o externo é cada vez mais estreita. A recusa de Macron da demagogia anti-imigração e a sua crítica da banalização da islamofobia são condições favoráveis para uma nova política mediterrânica, menos securitária, mais solidária e inclusiva.
O sucesso da política internacional da França vai depender em larga medida da capacidade de criar uma nova dinâmica europeia, o que está longe de estar garantido, mas seria um erro que o ceticismo e catastrofismo reinantes impedissem de ver o significado da eleição de Macron e a importância das suas propostas para a União Europeia e a ordem internacional.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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