Eleições francesas, que prognóstico?

Maria Carlos Oliveira

Quando penso nas eleições francesas, não consigo deixar de pensar no Deus das Moscas, que William Goldig publicou em 1954, na ressaca da Segunda Guerra Mundial, onde, de forma dolorosa, expõe a frequente disponibilidade do ser humano para seguir lideranças destrutivas, mesmo quando os seguidores começam por ser as primeiras vítimas; assim como no complexo processo de decisão do ser humano, que desde há muito me tem fascinado, e que é imprescindível para ajudar a compreender o comportamento humano nos diferentes contextos. Esta associação assalta-me frequentemente, neste tempo complexo e conturbado que vivemos, porque desde há muito me interrogo se a facilidade de acesso à informação (que convém distinguir de acesso efetivo) se traduz numa melhoria da tomada de decisões.


Philip E. Tetlock e Dan Gardner definem de forma clara e concisa o sistema de decisão humano, que me parece oportuno transcrever: «Ao descrever o modo como pensamos e decidimos, os psicólogos modernos usam muitas vezes um modelo de sistema dual que divide o nosso universo mental em dois domínios. O sistema 2 é o reino familiar do pensamento consciente. Consiste em tudo aquilo em que decidimos concentrar-nos. Por outro lado, o sistema 1 é em grande parte estranho para nós. É o reino dos processos percetivos e cognitivos automáticos (…). Não temos consciência destes processos rápidos, mas não poderíamos funcionar sem eles. Ficaríamos desligados.
A numeração dos dois sistemas não é arbitrária. O sistema 1 vem primeiro. É rápido e está constantemente a trabalhar em segundo plano. (…) O sistema 2 fica encarregado de questionar essa resposta. A resposta resiste a um escrutínio? Tem uma base concreta? Este processo exige tempo e esforço, e é por isso que a rotina-padrão na tomada de decisões é a seguinte: primeiro o sistema 1 fornece uma resposta e só depois é que o sistema 2 se envolve no processo, começando por examinar aquilo que o sistema 1 decidiu.
Se o sistema 2 vai realmente entrar em ação é uma outra questão.».
Outra questão é saber se, realmente, os seres humanos estão aptos a gerir a complexidade, ou se as respostas dependerão, fundamentalmente, de padrões consolidados ao longo da História e, sobretudo, dos mecanismos que se foram organizando e consolidando para controlar os excessos da comunidade/sociedade, pois, como sabemos, há comunidades que enfrentam de forma mais eficaz os desafios com que se vão confrontando. A resposta a esta questão é tão mais fundamental quando se tem a perceção de que as lideranças não estão hoje à altura dos desafios do século XXI.
Devo confessar que o que mais me surpreendeu na 1ª volta das eleições francesas foi o discurso de Jean-Luc Mélenchon e a simplificação que ressalta da sua análise. Disse Mélenchon, “É uma violência aquilo que é feito à maioria de nós. Desta violência não se pode sair com uma situação estável. A natureza dos protagonistas da segunda volta impede esta estabilidade. Um porque é a extrema-finança, a outra porque é a extrema-direita”. A justificação, que posteriormente apresentou através de um vídeo dirigido aos seus apoiantes, “Vocês não precisam que eu vos diga o que fazer” dado “não ser um guru” ou um “guia”, ainda me pareceu menos corajosa e patriótica, apesar do pretenso respeito pela capacidade de decisão dos seus eleitores. Não se espera de um candidato a uma eleição que seja um guru, um professor, mas que partilhe o seu pensamento, as suas razões, a sua análise sobre a situação, afinal é isso que se espera de um líder e o exercício da liderança não significa, necessariamente, promover o seguidismo. É também líder aquele que contribui, ativamente, para o sucesso da equipa, dialogando com ela, procurando com ela as melhores soluções, sabendo ser assertivo quando o seu saber e a sua intuição, quando a possui, lhe permitem dar o salto para o futuro desconhecido. Se pensarmos que as nossas construções sobre a realidade podem ser mais ou menos adequadas, pois «o sistema 1 não pode concluir o que bem entender. O cérebro humano exige ordem. O mundo deve fazer sentido, o que significa que devemos ser capazes de explicar o que estamos a ver e a pensar. Em geral conseguimos fazê-lo – porque somos efabuladores criativos, capazes de inventar histórias que dão coerência ao mundo», então o vazio dialógico deixado por Mélanchon favorece claramente o discurso de Marine Le Pen, que apresenta uma direção clara, ainda que perniciosa, a uma sociedade à procura de um rumo. Torna-se assim compreensível o apelo direto aos eleitores de Mélanchon. Ironia ou confirmação da facilidade de entendimento entre os extremos? Entender-se-ão tão bem por desvalorizarem, da mesma a forma a democracia e o aperfeiçoamento que só esta permite?
Assim, colocar Marine Le Pen, que não é da direita democrática mas da extrema-direita, e Emmanuel Macron, com esta ligeireza, no mesmo patamar, parece-me de uma irresponsabilidade perigosa e arrogante. O que está em jogo é muito mais do que a escolha entre dois projetos distintos, que têm em comum o facto de não agradarem a Mélenchon e a muitos outros eleitores. É, sobretudo, uma avaliação das consequências, de cada um deles, para a França, e também para a Europa e para as suas relações à escala global.
Por tudo isto, apesar dos elogios que se fizeram ouvir, o discurso de Mélenchon não é, não pode ser, um discurso para o futuro por ser possível detetar os tiques do passado, que tão bem Carne Ross sintetiza quando escreve que «Os sistemas de pensamento dominantes do século XX só nos apresentam pistas fragmentadas para as soluções de que hoje necessitamos. O comunismo oferece uma igualdade espúria à custa do sacrifício da liberdade individual. O capitalismo oferece a liberdade à custa da justiça social, da harmonia e de uma fundamental sensação de sentido, individual ou partilhado.
No entanto, tanto a esquerda como a direita oferecem dicas sobre filosofias novas e mais fortes. O ponto forte da direita, é o seu apelo ao empreendimento e à expressão individual, liberta do fardo insensibilizante da governação. O ponto mais forte da esquerda é o reconhecimento de que não estamos separados uns dos outros, de que a comunidade nos acolhe e socorre a todos, combatendo a injustiça, a iniquidade e o individualismo meramente egoísta e, em última instância, alienante. Todos estaremos melhor juntos. As duas linhas evocam verdades fundamentais da condição humana.»
Parece assim claro que a escolha de um ou de outro não é igualmente má e, sobretudo, num país como a França, que sempre manifestou uma especial apetência para as soluções revolucionárias e sangrentas, de cujo peso ainda parece encontrar-se prisioneira e, talvez por isso, incapaz de se adaptar ao tempo, enclausurada que está na perda, objetiva, de influência. Convém lembrar que «Os métodos não violentos não são iguais a nada fazer. Pelo contrário, são métodos assertivos que podem ser muitíssimo eficazes mas que evitam feridos e derramamento de sangue, reforçando-se, simultaneamente, graças à autoridade moral da rejeição da violência.». Marine Le Pen galopa o ódio, Macron apresenta um discurso de abertura e integração, que tem a vantagem óbvia de, à partida, não reduzir ao silêncio o contraditório. Dir-se-á que é pouco, é verdade, mas permito-me, nesta caixa de Pandora em que o Mundo se transformou, partilhar, literalmente, o espírito do provérbio chinês «É preferível avançar com pequenos passos na direção certa, do que dar um grande salto em frente e cair para trás».
O que vai acontecer na 2ª volta das eleições francesas? Não sei, porque «Frequentemente, a previsão do século XXI é muito parecida com a medicina do século XIX. Há teorias, asserções e discussões. Há figuras famosas, tão confiantes quanto bem remuneradas. Mas há pouca experimentação, ou qualquer coisa que possa ser chamada ciência, pelo que sabemos muito menos do que as pessoas imaginam. E pagamos um preço por isso. Embora as más previsões raramente levem de forma clara a consequências tão danosas como a má medicina, levam-nos subtilmente a tomar más decisões e a tudo aquilo que delas deriva – incluindo prejuízos financeiros, oportunidades perdidas, sofrimento desnecessário e até guerra e morte.»
Apenas sei que entendo hoje, com uma profundidade que me escapou na altura em que vi o filme As Asas do Desejo, de Wim Wenders, a interrogação final da cena em que «um velho contempla, numa biblioteca de Berlim, fotografias de crianças mortas em tempo de guerra. É muito idoso, talvez esteja perto da morte. Pensa para si mesmo: «Os meus heróis já não são guerreiros e reis, mas as coisas da paz…Contudo, até agora, ainda ninguém foi capaz de cantar um épico à paz. O que tem a paz para que a sua inspiração não seja duradoura? Porque é a sua história tão difícil de contar?».

 

Ilustração: quadro de René Magritte https://www.pinterest.pt/pin/444378688212934367/

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