Trump: o novo rapto da Europa?

O primeiro debate do Fórum Demos, que aconteceu no Porto, a 3 de Fevereiro, procurou analisar as consequências da presidência de Donald Trump para o futuro da União Europeia. Com intervenções marcadas pela apreensão e incerteza sobre qual vai ser a actuação do presidente face às eleições que se aproximam na Europa, a discussão percorreu questões como as da ideologia de Trump, o crescimento dos populismos e o papel das sociedades civis na garantia do sistema democrático.

Uma das questões discutidas foi a do posicionamento ideológico do presidente americano à luz das suas promessas de campanha, das primeiras decisões na presidência e das escolhas que fez para a sua equipa. Qual é, afinal, a ideologia de Trump? collage_fotor2Se para alguns é muito claro que Trump perfilha uma ideologia de extrema-direita, racista e xenófoba, visivelmente assumida na escolha do supremacista Steve Bannon para a equipa presidencial ou no decreto executivo proibindo a entrada de cidadãos de países muçulmanos, outros preferiram afastar a dicotomia direita vs. esquerda e classificá-lo como um populista anti-democrático, com marcas comuns aos dois extremos ideológicos: o nacionalismo, o isolacionismo, o proteccionismo e o nepotismo.Um membro do Fórum Demos defendeu que a principal ideologia de Trump é o seu oligarquismo, que culminará, à semelhança de Putin na Rússia, no enriquecimento e poderio político de um grupo de próximos do presidente.

Também se quis perceber se Portugal poderá ou não ser permeável a tendências semelhantes, que, aliás, se vêm afirmando em vários países europeus muito antes da eleição americana, na Hungria e outros países de Visegrado, mas também, cada vez mais, no norte europeu. Aqui, a dúvida atravessou o debate, pelo receio de que o basismo da mensagem de Trump leve a que ela possa chegar mais facilmente aos mais jovens – e daí o papel crucial da escola na educação para a democracia; por esta ser uma mensagem que propõe o regresso a um certo modo de vida que muitos sentem ter desaparecido com a globalização da economia; pela ideia alimentada acriticamente pelos media e lideranças políticas de que vivemos um aumento da insegurança; ou porque as gerações que beneficiam de modelos sociais mais avançados não querem assumir a sua responsabilidade na tarefa de manter e promover estes modelos.

Por tudo isto, a possibilidade de o discurso de Trump poder colher na sociedade civil portuguesa é real, até por ser visível, sobretudo nas redes sociais, a afirmação de correntes que exprimem descontentamento com o centro político, com o “sistema”, às quais não corresponde, no entanto, para já, uma expressão partidária no sistema político português.

E face à aproximação este ano de várias eleições importantes na Europa, marcadas pela sombra do Brexit e o crescimento nas sondagens dos partidos populistas, colocou-se a questão de saber que União Europeia sairá dos resultados em França, Alemanha, Itália e Holanda. Entre os que temem o apoio directo de Trump aos candidatos populistas e os que defendem que a Europa se irá unir contra as políticas do presidente americano, a conclusão não é evidente. Quase todos apontaram como um problema muito sério a fragilidade actual das instituições europeias e lideranças nacionais, bem como a incongruência da resposta à crise dos refugiados, contrária aos valores da Europa. Tudo factores que debilitam a capacidade da União Europeia ser um contraponto e falar a uma só voz no diálogo com Trump. A nota optimista, ainda assim, está na capacidade de resistência e transformação da poderosíssima sociedade civil norte-americana e na possibilidade de uma mobilização significativa das sociedades civis europeias, o que faz, sem dúvida, deste tempo, o tempo da responsabilidade cívica.

Um pensamento em “Trump: o novo rapto da Europa?”

  1. A discussão hoje não se deve focar, no meu entender, no posicionamento de Trump ou no risco cada vez mais evidente de termos, mesmo na Europa, líderes com posições extremistas, tipicamente de direita.

    Não é a direita, a esquerda ou o centro enquanto posicionamento político que interessam, linhas cada vez mais ténues e esbatidas numa demagogia que se encontra crescentemente a anos luz dos problemas dos cidadãos.

    Na verdade é essa a discussão que ninguém quer ter – os cidadãos; o que querem afinal os cidadãos?

    Quando há cerca de 10/15 anos atrás a Europa era inundada por maiorias de abstenção ninguém quis saber – a classe política enterrou a cabeça na areia qual avestruz (e o coitado do bicho nem isso faz!!) e a comunicação social insistia em debater os resultados eleitorais do costume: ganhou o partido X, o partido y desceu e o z ganhou terreno eleitoral, metendo-se na gaveta quem efectivamente tinha ganho as eleições – a escandalosa abstenção.

    Ignoraram-se os claros sinais que os cidadãos, um pouco por toda a Europa, vinham manifestando numa clara ausência de identificação de valores da classe política em exercício, paralelamente com muito do afastamento da própria Europa, daquele orgão mastodôntico e paquidêrmico a galáxias de distância de todos.

    Os tempos mudaram efectivamente e os sinais foram dados há muito e sob diferentes formas.
    Parece-me que hoje não se trata de discutir ideologias – os cidadãos querem acções práticas, efectivas que resolvam os seus problemas, diários.
    Toda a propaganda de Trump, goste-se ou não, não é mais do que aquela do empresário de sucesso que agora quer gerir o seu país.

    Também na Europa é isso que procuramos – não é a política de direita ou de esquerda, que apenas ouvimos em época de campanha eleitoral; queremos gestores, pessoas com efectiva experiência e passado profissional, que não cresceram à sombra de uma qualquer jota sem saber bem o que é a vida profissional, as exigências do mercado de trabalho privado, em suma que desconhecem os verdadeiros desafios que os cidadãos enfrentam todos os dias.

    Na ausência destes, naturalmente ficamos entregues aqueles que melhor dominam a comunicação e os meios de comunicação, com a demagogia mais populista do momento.
    Por ora são os refugiados mas nos próximos meses poderá ser outra moda qualquer, desde que o denominador seja comum – um elemento que afecta directamente a vida dos cidadãos e que por isso mais emocionalmente possa ser transmitido na persuasão da conquista de votos.

    É altura de mudar.
    Chega de políticos e demagogos.
    Precisamos de executivos, operacionais, pessoas com efectiva experiência, individuos de valor e pensadores de uma estratégia, não aquela míope a 4 anos, em função do calendário eleitoral, mas uma estratégia séria de longo prazo, para o país, para os cidadãos e para a Europa, isenta dos sabores ou ventos com cores políticas que tendem a mudar sazonalmente.

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s