O estado característico de profunda apatia política das sociedades ocidentais permanece tão forte como nunca*

Rooney Pinto[1]

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Marko Djurica, Reuters

 

Ainda assusta a incapacidade política da Europa de lidar com a crise dos refugiados e imigrantes. A frase de Castoriadis, citada em sua obra La Montée de L’Insignificance publicada inicialmente pela Seuil em 1996, permanece ainda lúcida e atual. Há uma profunda apatia política, uma incapacidade em lidar com crises e um desmoronamento de valores como poucas vezes foi visto. E podemos ver isso em diversas esferas da sociedade. O mais recente episódio noticiado pelos media diz respeito ao julgamento e condenação da jornalista húngara Petra László, que foi filmada “rasteirando” refugiados que fugiam da polícia na fronteira da Hungria com a Sérvia. László trabalhava para a N1 TV na altura e alegou ter entrado em pânico agindo em sua defesa.

A jornalista foi condenada a três anos de pena suspensa com liberdade condicional, por violar a paz. Que paz? Foi este o crime? Segundo a matéria publicada na Euronews desta sexta-feira 13, “«O júri não teve dúvidas em determinar que a ré foi culpada por violar a paz, conforme descrito ao abrigo do artigo 339 do Código Penal, parágrafo 1» anunciou o juiz Illes Nanasi”[2]. A jornalista é apenas uma nuvem numa tempestade de pobreza humanitária, preconceitos e crise ética que atingiu toda a sociedade ocidental. Não se sabe exatamente lidar com estas questões porque envolvem muitas e delicadas variáveis. São refugiados de guerra, são imigrantes económicos, são uma oportunidade para a entrada de terroristas no espaço europeu, são uma ameaça aos postos de trabalho, etc. A complexidade dos factos ultrapassa as denominações, revela o fracasso político e humano que nos assombra todos os dias e descortina aos poucos nacionalismos, xenofobia, crises económicas e sociais.

Osama Abdul Mohsen, o homem sírio que fora fotografado sendo agredido pela jornalista e indo ao chão com uma criança nos braços, tornou-se logo em bandeira de discursos humanitários. Tão pobres e limitados como o seu tempo, foram incapazes de avançar muito e Mohsen que logo após a mediatização do facto foi contratado para formar treinadores futebolísticos nas proximidades de Madrid, já se encontra no desemprego pelo seu limitado desempenho com a língua espanhola. Não havia um plano? Um projeto para este contexto? Sabemos lidar com estes casos dentro de um plano alargado, aos moldes da Europa humanitária e desenvolvida de nossas utopias?

A mediatização dos problemas sociais e das crises humanitárias parece ter um efeito de top hits numa rádio FM, podendo estar entre os dez mais numa semana e na outra ser substituído por outros de maior apelo mediático. A crise dos refugiados grafita na testa de todos a nossa profunda apatia, consciência social empobrecida, alienação e desumanização. Enquanto é notícia partilhamos uma pseudo-preocupação, porque isso parece nos unir no teatro social moderno, depois é só substituir este problema pelo outro que parece ser mais badalado. No momento Trump está nos top hits da semana, depois pode ser Putin. Mas não importa, continuamos num estado característico de profunda apatia política, tão forte como nunca.

________

* Castoriadis, C. (2012). A ascensão da insignificância. (C. C. Oliveira, Trad.) Lisboa: Bizâncio. p.88

[1]  Doutorando em Estudos Contemporâneos – CEIS20-UC

[2] Disponível em: http://pt.euronews.com/2017/01/13/jornalista-hungara-condenada-por-agredir-refugiados-diz-que-vai-recorrer-de

 

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