Soares: frisar a cultura

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Foto: Luís Vasconcelos

Renato Janine Ribeiro

Sou um dos não portugueses dentre os fundadores do Forum Demos. Portanto, compreende-se que conheço menos de Mário Soares do que os companheiros. Mas alguma coisa eu gostaria de ressaltar.

Primeiro, um episódio que já não lembro quem me relatou, e que não sei se saiu publicado em algum lugar. Quando Fernando Collor, eleito presidente do Brasil em 1989 (e depois afastado por crime de responsabilidade), fez o tour internacional que era praxe de nossos governantes após a eleição, esteve em Portugal. O Presidente Mário Soares lhe disse: países como os nossos, que não se destacam pela economia, devem frisar muito a cultura, como o ponto em que podem fazer a diferença. Collor – cujo voluntarismo tinha sido saudado, no mesmo périplo, pelo Presidente George H. Bush que o chamou de “Indiana Collor” – teria respondido: o mundo da cultura se opôs ferozmente a meu nome, não vou priorizá-los.

Penso que a frase de Mário Soares resume um projeto de mundo. Ela é importante não só para países como Portugal e Brasil, num segundo ou terceiro escalão mundial de poder, mas para muitos outros que podem fazer de sua identidade uma contribuição notável para o mundo. Penso, por exemplo, no Uruguai, que graças a Mujica, mas não só, conseguiu desenhar um paradigma no mundo, tanto que muita gente que não é de esquerda o admira. E foi pensando nesta frase de Mário Soares que afirmei minha esperança de que um secretário-geral da ONU português possa concorrer para “nossa língua, nossa pátria” (Caetano Veloso) ser mais conhecida, pelo menos por sua arte e literatura ricas.

O segundo ponto diz respeito mais ao Mário Soares político. Duas foram suas grandes façanhas, olhando de fora. A maior foi a contribuição para a independência das colônias. Afinal, o 25 de abril se deveu antes de mais nada ao esgotamento da guerra colonial. Raro é o caso em que um exercito colonialista diz Basta! e reconhece a independência do antes inimigo. Embora o mérito inegável seja do Movimento das Forças Armadas, Mário Soares foi um dos grandes artífices, do lado português, das independências de 1974 em diante. Mas é preciso, e profundamente triste, notar que quem mais ganhou com elas foi Portugal, não as antigas colônias. Várias delas se afundaram nos conflitos armados e na corrupção. Na verdade, quem se emancipou foi Portugal. Deixou um modelo medíocre, arcaico, de exploração desumana dos colonizados, e virou um país completamente diferente. Poderia ter sido de outro modo? Penso que o sonho de parte pelo menos do MFA era outro. Alguns chegaram a pensar numa união da antiga metrópole com as antigas colônias, um Portugal aberto para o Terceiro Mundo. Foi a segunda vez que Portugal teve essa possibilidade. A primeira foi quando a Corte se transferiu e depois se sediou no Rio de Janeiro, em 1808. Rapidamente, a colônia do Brasil se tornou centro do que não era mais um reino apenas, mas um império. Não funcionou. Não houve causa comum entre os liberais da revolução de 1820 e, depois, da primeira Constituinte portuguesa e os defensores da liberdade do Brasil. O mesmo sucedeu na década de 1970. A esquerda portuguesa, pelo menos a socialista, e as africanas não estavam no mesmo diapasão. Daí que Portugal foi para a Europa. Houve muito rancor na época. Muitos detestaram Mário Soares porque perdiam seus privilégios na Africa (mas, indo para Portugal, ganhariam uma cidadania europeia). Teria sido possível uma Commonwealth portuguesa forte? Que ao contrário da britânica fosse uma união mais densa? De Gaulle tinha tentado isso, como última forma de manter uma relação privilegiada com a francofonia africana e asiática, mas deu errado – sobrou apenas o imperialismo da Françafrique. No caso de Portugal, provavelmente faltavam elementos básicos para substituir o império explorador por uma união democrática. Portugal não teria as riquezas necessárias para reverter o movimento centrífugo que já era irreversível. Mário Soares provavelmente, ao se opor aos setores mais esquerdistas do MFA e ao PCP, desenhou o melhor futuro possível para Portugal. Lembro que em 1974 muitos zombavam da possibilidade de que esse país pobre e atrasado se tornasse uma social-democracia. Erraram. E, embora o sucesso na consolidação democrática, na aproximação com a Europa e tudo o mais se devesse em parte à direita democrática, quem foi capaz de organizar esse movimento centrípeto – o centrípeto possível, limitado a Portugal, já sem as colônias que não havia como manter – foi Mário Soares. E ele viveu as décadas suficientes para não só seu projeto dar certo, como também para poder vê-lo e ser reconhecido como um estadista. Porque não basta governar para ser estadista. Este é um título que poucos merecem. Mário Soares foi um deles.

Não posso resistir a um último comentário. Anos atrás, a London Review of Books publicava um artigo dizendo, com humor, que a melhor saída para Israel seria ser como Portugal. São países de população e território aproximados. Mas se fala de Israel o tempo todo – e só para más notícias. Então, como seria bom quando Israel aparecesse no jornal uma ou duas vezes por ano! Pois é, Portugal aparece pouco, mas com consistência.

 

 

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